Um português no OSS


Amadeu Ferreira, de 82 anos de idade, faleceu em 17 de Agosto de 2005. Segundo informa o OSS, o serviço americano de informações e operações clandestinas que antecedeu a CIA,este português foi agente daquele serviço durante a 2ª GG. Antes de se aposentar era presidente da Divisão Internacional de Becton Kickinson & Co. em Franklin Lakes, New Jersey. Os sobreviventes incluem sua esposa de 53 anos, Patricia L. Ferreira de Stuart; o filho, Paul J. Ferreira de Stanford, Conn.; as filhas, Ann. F. Kelly de Cohasset, Mass. e Margaret T. Ferreira de Greenwich, Conn.; as irmãs, Hortense Coutinho e Celeste Monteiro, ambas em Portugal; bem como quatro netos. Sobre ele permito-me citar o que pode ser lido aqui: «Amadeu Ferreira - died at Martin Memorial Hospital South. He spent his formative years in Lisbon, Portugal, with his parents, Eugenie and Jaime Ferreira, who pre-deceased him. He served in the Army-OSS during World War II. He graduated from Brown University and began his career with Becton Dickinson and Company as assistant to the Foreign Sales Manager. He was assigned to the company's Mexican and Brazilian subsidiaries and was named Acting Director of the International Division in 1959 and Director in 1960. He retired in 1985 as President of the International Division. Survivors include his wife, Patricia, daughters, Ann F. Kelly and Margaret T. Ferreira; son, Paul J.(Kathleen) Ferreira and grandchildren, Meredith and Tyler Kelly and Megan and Kelly Ferreira. A Memorial service will be held at Peace Presbyterian Church. Arrangements are made by Martin Funeral Home and Crematory, Stuart, Florida. Published in the Stuart, Fl newspaper, Novembver 2, 2005.»

Oleg Kalugin e os arquivos da PIDE


Depois de ter publicado as suas memórias, Oleg Danilovitch Kalugin [na foto à direita, acompanhado de Harold Russel «Kim» Philby], general do Primeiro Directório do KGB viu-se em Portugal alcandorado a uma tal notoriedade que ele próprio se surpreendeu. Traduzida uma pequena parte da obra para português, o antigo agente da Lubyanka veio a Portugal onde seria entrevistado por José Paulo Fafe. Na ocasião, a natureza bombástica das suas revelações atirou-o para a ribalta, nomeadamente por tido a ousadia de afirmar que alguns dos Arquivos que a PIDE/DGS guardava na Rua António Maria Cardoso, tinham sido carregados para a URSS. Perante a gravidade de tais afirmações, constou então com foros de verosimilhança, que as autoridades portuguesas haveriam instaurado um processo de averiguações, para apuramento de responsabilidades. Tempo passado, há uma pergunta indiscreta a que não se resiste: alguém sabe da sorte de tal processo ou porque se deixou de falar no assunto?

Graham Greene: uma vida secreta

Image hosted by Photobucket.comEm 2 de Outubro de 2004 completaram-se cem anos sobre o nascimento de Graham Greene. O autor de «O nosso homem em Havana» foi escritor sobre temas de espionagem e entre Julho de 1941 e Maio de 1944 foi agente do MI6, na área da contra-espionagem. Portugal seria também o seu alvo. Estávamos em plena segunda guerra mundial. Para comemorar o acontecimento proferi uma conferência em Sintra, na Casa-Museu Ferreira de Castro, no dia da efeméride. De tal conferência, ainda inédita, publiquei um resumo na revista «Visão». Eis o texto do respectivo artigo.


Um homem que ficcionou a própria vida, vivendo-a duplamente e recriando-a ao contá-la, eis no campo literário, Henry Graham Greene: um escritor que conviveu com a realidade dos serviços secretos e disso faz narrativa para os seus livros. Perfazem-se no próximo dia 2 de Outubro, cem anos que ele nasceu.
A sua vida foi controversa, as biografias que se lhe dedicaram também.
O professor americano Norman Sherry levou doze anos a escrever dois volumes de uma obra sobre ele, que projectara em três tomos. Ao ter entrado no segundo momento desse seu aturado trabalho, o biografado morreu-lhe. Estava-se em 1989. Graham Greene faleceu em Vevey, um lugar aprazível para se viver.
Michael Shelden seguiu-lhe os passos, tentando encontrar a verdadeira natureza desse personagem ambíguo, dissimulado, evasivo.
Entrado na «disciplinada e digna fileira dos mortos», Graham Greene é ainda hoje um homem e uma colecção de máscaras da sua pessoa.
O essencial da sua vida pública resume-o à escrita.
O grande público associa-o nomeadamente a guiões para filmes, até porque muitas das suas obras acabaram vertidas para cinema. E não foi só «O Americano Tranquilo», essa narrativa parcialmente auto-biográfica, que descreve parte das suas andanças pelo Vietname. A sétima arte acolheu também muitos outros dos seus trabalhos, alguns em adaptações. É o caso de «O Terceiro Homem», em que Orson Welles tem um desempenho notável, e tantos outros.
Escritor laureado, mas que nunca chegaria a receber o prémio Nobel da literatura, na obra de Greene o tema da espionagem tem, porém, uma incidência muito significativa. Livros como «O nosso homem em Havana», «O Factor Humano», «O Agente Confidencial», ou são histórias vividas no âmago dos serviços de informações ou narrativas para cuja construção o envolvimento de Greene nos serviços secretos foi determinante.
O mundo secreto é uma experiência importante na sua vida.
Greene trabalhou pouco na espionagem e escreveu muito sobre a espionagem.
Parte do seu percurso nos serviços secretos tem a ver com Portugal, durante a Segunda Guerra.

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Vera Atkins: finalmente uma biografia

Image hosted by Photobucket.com O livro acaba de sair. É uma biografia de uma das agentes do SOE. A autora é Sarah Helm. A obra tem merecido boas críticas na imprensa literária, nomeadamente no último número do TLS, onde me apercebi da sua existência. Vera desempenhou desde finais de 1941 as funções de oficial de informações de Maurice Buckmaster, o chefe da secção francesa do SOE, , o serviço britânico de operações especiais. A sua forte personalidade resume-se na frase de Georges Millar: uma mulher que sabia dominar quem quer que usasse calças. Faleceu em 24 de Junho de 2000, com 92 anos de idade. A obra concentra-se sobre uma das suas mais lendárias missões, a recuperação na Alemanha, terminada a guerra, de agentes que haviam sido infiltrados naquele país.

Thomas Harris, do MI5 e o seu alter «Garbo»


Especulou-se sobre o desastre automóvel em que morreu. Protegeu «Kim» Philby e foi amigo Desmond Bristow. Gerindo o agente «Arabel», criou o célebre «Garbo». Pintor, fazia da espionagem também uma arte. Estudei um pouco a sua vida. Eis o que julgo saber.


Falar de Tomás Harry é seguramente contar a história do agente catalão Juan Pujol Garcia, cuja carreira ele geriu. Só que o personagem é bem mais rico do que isso e resiste a muitas simplificações, não se livrando porém, como se fosse ele próprio também um objecto estético, à duplicidade das interpretações sobre a verdadeira natureza da sua vida. Ainda hoje, anos volvidos sobre a sua morte, as suspeitas sobre a lealdade ensombram a sua lenda, havendo quem, nas ligações pessoais comprometedoras que manteve, veja um elemento de ligação à causa soviética à qual foram fiéis muitos dos seus amigos de então.
Citando Anthony Blunt, o jornalista Chapman Pincher, no seu provocante livro «Their trade is treachery», publicado em 1981, imputa-lhe ideias marxistas mas ressalva que, segundo Blunt, ele não seria um agente russo, pelo menos tanto quanto lhe tinha sido dado observar. Mas já nas memórias que, sob o título «A Game of Moles», editou em 1993, Desmond Bristow citaria a sua própria mulher como partilhando da convicção de que tal ligação era real e demonstrada pelos factos.
Mas é na estética e na arte das sombras e da ambiguidade que se revêm os traços essenciais da sua personalidade multiforme, que Philby consideraria ser a de um espírito intuitivo brilhante.

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David Crockett: obituário


David C. Crockett, que teve uma notável carreira na 2ª GG, como um oficial de informações ao serviço do OSS americano [antecessor da CIA] , morreu em 2005, Ipswich, Mass. Tinha 95 anos. Uma das suas missões clandestinas no OSS era efectuar o transporte de ouro para Lisboa, por Portugal ser um país neutro. Aqui o metal seria convertido na moeda italiana, e subsequentemente encaminhado como meio de pagamento para subsidiar o movimento de resistência italiana. Para efectuar tal transporte-se valia-se da sua condição de médico, transportando os valores na mala onde transportava documentação clínica.
Participou também na operação Sunrise [ver aqui], a tentativa de Allen Dulles fazer o exército alemão render-se incondicionalmente no norte de Itália.

Terminaria a sua carreira na direcção do Mass. General Hospital [ver aqui]
Foi agraciado com a Legião de Mérito. Conheceu a mulher com quem casaria, Mary Yates, enquanto ao serviço do OSS. Estiveram casados durante 50 anos. Ela faleceria em 1996.
Encontrei a casa em que viveu [ver aqui], o obituário [aqui] e o  local onde se encontra inumado [aqui]

Colepaugh: um agente do Eixo em Lisboa


O número dois da revista «A Counterintelligence Reader» é dedicada à 2ª GG. Nela podem encontrar-se dados sobre os contactos em 15.04.44 do americano agente do Eixo William Curtis Colepaugh [alias Carl Curt Gretchner ou Wilhelm Coller] com as antenas locais da espionagem alemã em Lisboa. Dispensado pela Reserva da Marinha dos EUA, «Bill» foi recutado pelos alemães e sujeito a treino na escola de formação de agentes secretos em Haia.
Sobre o seu caso pode ler-se aqui e aqui.

A Polónia e a guerra secreta


Um útil «site» sobre o esforço da Polónia durante a 2ª GG menciona com amargura que os soldados polacos não foram convidados para participar no desfile da vitória, nem em Londres, nem em Moscovo. Foi lá que encontrei a fotografia anexa, um testemunho de confraternização entre as tropas soviéticas e as alemãs, durante o conflito. Vale a pena a consulta, pois ela permite saber algo, a nível das redes de informações disseminadas pelos Aliados na Europa, com colaboração polaca, incluindo em territórios neutrais, como em Portugal. A propósito, o «site» lembra o criptógrafo polaco que ajudou no desvendar aqui. É um site governamental de reparação da verdade.

London Can Take It: um filme em Kew Gardens


O jornalista americano Quentin Reynolds prestou o seu tributo a Londres durante o Blitz em 1940, através de um filme chamado «London Can Take It». Os «National Archives» britânicos, em Kew Gardens, disponibilizam as imagens que podem ser vistas aqui.