National Archives: heróis e vilões

Os National Archives de Inglaterra informam da disponibilidade on line de informações sucintas, mas interessantes, sobre a vida de alguns estadistas influentes durante a 2ª GG. O material, cognominado «Heroes and Villains», pode ser encontrado aqui.

Cândido de Oliveira: o agente «Pax» no Tarrafal

A propósito dos homenageados do Tarrafal fica aqui uma menção a um deles, autor de um livro que relata os horrores do campo de internamento onde esteve em 1942: Cândido de Oliveira, que muitos conhecem como o fundador do jornal «A Bola», poucos como quem escreveu o livro «O Pântano da Morte», ainda menos como alguém que foi agente secreto em favor da causa aliada, agente do SOE, o serviço britânico de guerra clandestina.
Nascido em 24 de Setembro de 1896, na vila alentejana de Fronteira, Cândido Fernandes Plácido de Oliveira, cedo ficou órfão de pai. Por causa disso entrou para a Casa Pia em 15 de Julho de 1905, onde foi educado e se fez atleta.
Funcionário dos Correios, Telégrafos e Telefones, alcançaria aí, pelos seus méritos carreira destacada.
No âmago desportivo, Cândido de Oliveira cedo ganhou justos palmarés como atleta, jogador, árbitro e treinador: campeão de Lisboa de luta greco-romana, capitão do grupo de honra do Sport Lisboa e Benfica, treinador do Casa Pia Atlético Clube e da Selecção Nacional, no Sporting Clube de Portugal, no Belenenses, no Futebol Clube do Porto, na Académica de Coimbra, no Flamengo do Rio de Janeiro.
Em 1928, a equipe nacional que se apresentou aos Jogos Olímpicos de Amsterdão foi por ele escolhida e orientada.
Sócio honorário da Federação Portuguesa de Futebol, fez parte do respectivo Conselho Técnico.
Foi, por várias vezes, seleccionador nacional.
No jornalismo, a sua estreia verificou-se em 1919, no diário desportivo «Vitória». Fundaria e dirigiria a revista «Football», os jornais «Gazeta Desportiva», «Os Sports» e «A Bola». Seria redactor em «O Século».
No campo teórico deixou vários livros de relevo: «Futebol, Desporto para a Juventude», «Futebol, Técnica e Táctica», «Sistema WM» e Segredos do Futebol».
Faleceria em Estocolmo, em 23 de Junho de 1958, quando fazia, com Ribeiro dos Reis a cobertura do Campeonato do Mundo para o jornal «A Bola».
Em 1990 o Presidente da República conferir-lhe-ia, a título póstumo, a Grã Cruz da Ordem de Mérito.
Anglófilo, seria desterrado, sem julgamento, para o Campo do Tarrafal em Cabo Verde. Com base nessa dolorosa experiência de dois anos escreveria «O Pântano da Morte», em que atou ao «pelourinho» o «Governo da Ditadura, Criador do Campo de Concentração do Tarrafal de Santiago de Cabo Verde». O livro seria publicado legalmente em 1974, pela Editorial «República».

O papel de mestre Cândido na rede clandestina aliada foi fundamental.
Desempenhava à data as funções de Inspector dos Correios.
Era de facto o agente «Pax», «H.204» (mais tarde «H.700») da rede do SOE.
O seu trabalho mereceria as melhores referências.
Cândido organizou uma rede de rádio-telegrafistas que, em caso de ruptura das comunicações oficiais, poderiam funcionar como um sistema alternativo e secreto na transmissão de informações. E, valendo-se do seu estatuto nos correios, permitia que a correspondência alemã fosse retardada por uma noite, o tempo necessário para ser fotografada pelos serviços de contra-espionagem dos britânicos.
Em 23 de Abril de 1941, John Beevor, o advogado que em Lisboa organizava a rede secreta destinada a deter um avanço alemão sobre o nosso país, comunicaria para Londres que «um novo amigo, Pax, tem sido muito útil e poderá arranjar um sistema definitivo de comunicações através de morse em vários centros da instituição na qual trabalha».
Só que a repressão haveria de se abater sobre a rede do SOE, sendo Cândido localizado após a prisão pela PVDE de Maximiano Varges.
Cândido de Oliveira pagaria assim com o Tarrafal. Para ali seria transferido em 20 de Junho de 1942. Regressado, dois anos depois, em 1 de Janeiro de 1944, mas só alcançaria a liberdade em 27 de Maio desse ano.
Havia sido demitido do seu lugar nos CTT.
Refazendo a vida, fundaria o jornal «A Bola», o jornal de todos os desportos», com o tenente coronel Ribeiro dos Reis. O número 1 sairia em 29 de Janeiro de 1945. Custava um escudo.
Sobre a sua vida pubiquei um artigo na revista do jornal que fundou, há uns anos. Homero Serpa viria a editar um livro biográfico sobre a sua pessoa. Até aí muitos pensavam que o degredo no Tarrafal tinha a ver com o facto de Cândido de Oliveira ser anti-fascista, que o era, quase ninguém sabia o que se passava quanto à ligação à causa aliada. Tenho comigo todos os documentos, na mira de um livro que talvez um dia tenha tempo para escrever.

007 no Canadá

Ao dar uma vista de olhos pelo site do Camp-X do Canadá verifiquei que nele se publica um post pelo qual se sugere que o nome de James Bond pode ter tido origem naquele Campo, quando da visita do seu criador, Ian Lancaster Fleming.
Segundo esta versão, quando Fleming que então trabalhava nos serviços de informações da Marinha, foi convidado por William Stephenson [mais conhecido como «Intrepid»], para observar e participar no Syllabus, a acção de treino na guerra subversiva levada a cabo pelos homens do SOE em STS 103 (Campo X), ao deslocar-se todos os dias do local da sua hospedagem para o dito campo, confortavelmente conduzido por um chauffeur posto à sua disposição, topava com um visível painel a anunciar a «Saint James Bond United Church».
Talvez seja assim. Mas se o for, esta tese deita por terra uma outra segundo a qual Fleming inspirou-se no nome quando, já retirado dos serviços secretos e residente na Jamaica, na sua mansão «Golden Eye», ali encontrou um livro do conhecido ornitólogo americano James Bond, chamado «Birds of West Indies».

Camp X, Canadá


Locais de culto, os museus são sempre centros de peregrinação pelos estudiosos e pelos leigos.
Abriu o site do Museu do Campo X, sito em Ontário, no Canadá e que pode ser encontrado aqui. Conhecido não oficialmente como Campo X, esta instalação paramilitar de treino foi conhecido oficialmente por vários nomes: como S25-1-1 pela RCMP, como o Projeto-J pelas forças armadas canadianas, e como STS-103 (escola de treino especial 103) pelo SOE britânico. Estabeleceu-se em 6 de Dezembro de 1941, em Whitby, Ontário, Canadá resultando dos esforços de cooperação da Coordenação Britânica da Segurança (BSC) e do governo de Canadá. O chefe do BSC foi Sir William Stephenson. Teve um papel notável na luta contra as forças do Eixo nazi-fascista.

«Manezes», um personagem ISOS

Ainda Liddell, ainda Menezes. Este domingo conferi as menções feitas no índice analítico dos diários de Guy Liddell a Rogério Magalhães Peixoto de Menezes e comparei-as com aquelas outras que eu tinha encontrado em Inglaterra nos Arquivos Nacionais [cota KV4/190], quando li aqueles diários na sua forma original, naqueles dossiers de argolas com aparência escolar, contendo as notas que ele todos os dias ditava, para serem dactilografas, à sua secretária sobre o que se passava nos serviços de contra-espionagem MI5, de que foi director durante a segunda guerra. O trabalho, minucioso, valeu a pena. Havia mais referências nos documentos originais do que o índice analítico elaborado por «Nigel West» assinala. Descobri, por exemplo, que Liddell anotara que os ingleses tinham um agente seu infiltrado na Embaixada portuguesa em Londres, que vigiava de perto o nosso biografado. E mais interessante ainda foi saber que Menezes, que a dactilógrafa, escrevendo foneticamente, grafa como «Manezes», era «a Portuguese ISOS character», o que quer dizer que ele havia sido, afinal, descoberto, antes de chegar a Inglaterra, através do sistema de escuta das rádio comunicações alemãs e sua descodificação em Bletchley Park. ISOS era, na verdade, um nome de código apto a designar «Intelligence Service Oliver Strachey», o nome do oficial britânico encarregado do tratamento das cifras alemãs manuais. Quando chegou a Londres, tinha o MI5 à espera.

Livros e conferências, oferecem-se

Há momentos em que as peças do jogo se ligam. Quando ainda não havia internet, muitos dos livros que eu comprei para estes meus trabalhos eram encontrados por uma simpática inglesa, chamada Caroline Hartley, que sempre imaginei uma pacata avózinha, que residia no interior de Inglaterra e cujos rendimentos eram conseguidos à conta deste engenhoso sistema: eu e outros como eu, enviávamos-lhe um fax com a lista dos livros que procurávamos, ela descobria-os, e quando os comprava receberia alguma comissão do vendedor. Muitas das preciosidades que hoje ornam a minha biblioteca foram assim achadas. Assim sucedeu com as memórias do Walter Schellenberg. Encontrei hoje dentro desse livro a tarjeta que ela distribuía com os seus contactos, o telefone e o fax. O símbolo era lindíssimo, um gato, felinamente curioso em cima de uma pilha de livros. Há muito tempo que não sabia dela, hoje é tudo através do ciber-espaço. Agora reencontrei-a e descobri que devemos ter uma idade aproximada. Também ela se converteu à internet, o gato, afinal, existe e é um miau real, a miar aqui.
Foi também através do ciber-espaço que ontem o encontrei: chama-se Mark Baldwin, é doutorado, vende livros sobre os serviços secretos na segunda guerra mundial e, além disso, oferece-se para fazer conferências sobre criptografia na segunda guerra. O seu site recebe o nome da máquina de codificação alemã, antecessora da Geheimschreiber: www.Enigmatix-uk.com.

Os diários de Guy Liddell e o livro de Rogério de Menezes

Há dois anos consegui lê-los, no então chamado «Public Record Office», actualmente «National Archives», em Kew Gardens, perto de Londres: os diários de Guy Liddlell, que entre Agosto de 1939 e Junho de 1945 foi director da contra-espionagem no MI5. Apercebi-me da sua importância e tirei notas para um livro que estou a finalizar, a biografia da agente dupla Nathalie Sergueiew, do XX Committee. Agora, tais diários acabam de surgir, em dois volumes, sob a chancela editorial de «Nigel West», nome literário de Rupert Allason, especialista em história dos serviços secretos. Iniciei ontem a leitura, para logo descobrir as menções que ali se fazem a um caso sobre o qual escrevi já um livro, o de Rogério de Menezes. Menezes era um agente ao serviço do Eixo, recrutado em Lisboa, não pela Abwehr, como era normal suceder, mas sim pelo Sicherheitdienst. A partir da Embaixada Portuguesa em Londres enviava cartas, escritas em tinta invisível, para os seus contactos em Lisboa, «Francisco Mendes» e «Manuel Castro», com informação com interesse militar, mas que, na realidade se veio a revelar de muito escasso valor. A leitura dos diários, permitiu-me enriquecer o meu conhecimento do caso em alguns aspectos relevantes. Primeiro, que foi John Bingham, da secção de Max Knight, quem esteve em contacto com Menezes, vigiando-o e apercebendo-se que, como espião, o seu trabalho era fraco, pois as mulheres pareciam ser a sua principal preocupação. Bingham era o pai da conhecida escritora Charllote Bingham, autora de um livro, publicado em 1963, quando tinha apenas dezanove anos de idade, sobre a vida da juventude britânica no final dos anos cinquenta, que em inglês se chamou «Coronet among the weeds» e em português, «Eu ele eles». Segundo, que a tentativa de o inutilizarem passou em primeira linha, pela eventualidade de mobilizarem a ajuda do Embaixador português em Londres, o anglófilo Armindo Monteiro, pai do escritor Luís de Sttau Monteiro, colocando-o ante o problema e esperando que ele o privasse, como acabaria por fazê-lo, da imunidade diplomática. Terceiro, que a questão ganhou relevo e chegou a ser discutida por Liddell com Dick Brooman-White e Sir Alexander Cadogan, sub-secretário permanente dos Negócios Estrangeiros. Quarto, que a recusa dessa via de solução diplomática, assentou no facto de o MI5 ter concluído que, para isso, seria necessário obter uma cópia de uma das cartas escritas em tinta invisível, o que levantaria suspeitas aos portugueses quanto ao facto de a mala diplomática nacional estar a ser violada pelos serviços secretos da nossa mais velha aliada. Quinto, que a carta em causa foi encontrada [«produced»] pelo «Triplex», o serviço clandestino de acesso à mala diplomática dos países neutrais. Sexto, que Londres foi sensível à circunstância de, ante a pressão gerada em torno da localização de Menezes, as autoridades de Lisboa terem procedidos à prisão de vinte e três agentes alemães entre os quais o próprio chefe local da Sicherheitdienst e assim a vida do homem das cartas de Londres foi poupada.
Devo confessar o meu júbilo em ter acedido a este livro. É que um leitor mais atento daquela minha biografia de Menezes pode concluir que quando ali afirmo que os ingleses acediam clandestinamente à mala diplomática faço-o com pouco suporte documental e apenas pelo cruzamente de uns quantos dados com algumas exigências da lógica. Agora tenho a prova, uma prova acima de qualquer suspeita.