Os diários de Guy Liddell e o livro de Rogério de Menezes

Há dois anos consegui lê-los, no então chamado «Public Record Office», actualmente «National Archives», em Kew Gardens, perto de Londres: os diários de Guy Liddlell, que entre Agosto de 1939 e Junho de 1945 foi director da contra-espionagem no MI5. Apercebi-me da sua importância e tirei notas para um livro que estou a finalizar, a biografia da agente dupla Nathalie Sergueiew, do XX Committee. Agora, tais diários acabam de surgir, em dois volumes, sob a chancela editorial de «Nigel West», nome literário de Rupert Allason, especialista em história dos serviços secretos. Iniciei ontem a leitura, para logo descobrir as menções que ali se fazem a um caso sobre o qual escrevi já um livro, o de Rogério de Menezes. Menezes era um agente ao serviço do Eixo, recrutado em Lisboa, não pela Abwehr, como era normal suceder, mas sim pelo Sicherheitdienst. A partir da Embaixada Portuguesa em Londres enviava cartas, escritas em tinta invisível, para os seus contactos em Lisboa, «Francisco Mendes» e «Manuel Castro», com informação com interesse militar, mas que, na realidade se veio a revelar de muito escasso valor. A leitura dos diários, permitiu-me enriquecer o meu conhecimento do caso em alguns aspectos relevantes. Primeiro, que foi John Bingham, da secção de Max Knight, quem esteve em contacto com Menezes, vigiando-o e apercebendo-se que, como espião, o seu trabalho era fraco, pois as mulheres pareciam ser a sua principal preocupação. Bingham era o pai da conhecida escritora Charllote Bingham, autora de um livro, publicado em 1963, quando tinha apenas dezanove anos de idade, sobre a vida da juventude britânica no final dos anos cinquenta, que em inglês se chamou «Coronet among the weeds» e em português, «Eu ele eles». Segundo, que a tentativa de o inutilizarem passou em primeira linha, pela eventualidade de mobilizarem a ajuda do Embaixador português em Londres, o anglófilo Armindo Monteiro, pai do escritor Luís de Sttau Monteiro, colocando-o ante o problema e esperando que ele o privasse, como acabaria por fazê-lo, da imunidade diplomática. Terceiro, que a questão ganhou relevo e chegou a ser discutida por Liddell com Dick Brooman-White e Sir Alexander Cadogan, sub-secretário permanente dos Negócios Estrangeiros. Quarto, que a recusa dessa via de solução diplomática, assentou no facto de o MI5 ter concluído que, para isso, seria necessário obter uma cópia de uma das cartas escritas em tinta invisível, o que levantaria suspeitas aos portugueses quanto ao facto de a mala diplomática nacional estar a ser violada pelos serviços secretos da nossa mais velha aliada. Quinto, que a carta em causa foi encontrada [«produced»] pelo «Triplex», o serviço clandestino de acesso à mala diplomática dos países neutrais. Sexto, que Londres foi sensível à circunstância de, ante a pressão gerada em torno da localização de Menezes, as autoridades de Lisboa terem procedidos à prisão de vinte e três agentes alemães entre os quais o próprio chefe local da Sicherheitdienst e assim a vida do homem das cartas de Londres foi poupada.
Devo confessar o meu júbilo em ter acedido a este livro. É que um leitor mais atento daquela minha biografia de Menezes pode concluir que quando ali afirmo que os ingleses acediam clandestinamente à mala diplomática faço-o com pouco suporte documental e apenas pelo cruzamente de uns quantos dados com algumas exigências da lógica. Agora tenho a prova, uma prova acima de qualquer suspeita.