Sonia Delaunay: espionagem simultânea

A pintora ucraniana Sonia Delaunay viveu em Portugal com o marido Robert, em Vila do Conde. A casa, a «Vila Simultânea», ainda lá está, praticamente na mesma, na antiga Rua dos Banhos. Com eles conviveu o pintor Eduardo Vianna. Duas vezes ali foram visitados por Amadeo de Souza-Cardoso, o eremita de Manhufe. De Lisboa, José de Almada-Negreiros venerava-a, escrevendo-lhe exaltadamente. Em Abril de 1916, durava a Primeira Guerra, quando se deslocou ao Porto, Sonia foi detida pela polícia, bem como Vianna, ambos acusados de espionagem. O caso, logo escandaloso, viria a esclarecer-se, mas não as razões da prisão. Na origem da mesma aparentemente teria estado uma denúncia anónima de um empregado do Consulado de França. Ao ler o livro de Sarah Afonso, viúva de Almada, sobre as suas conversas com a neta surgiu-me a pista de que o autor do Manifesto Anti-Dantas poderia ter estado na origem do equívoco, ao ter telegrafado equivocamente em busca do manuscrito K4 Quadrado Azul. Uma coisa é certa: naquele ambiente de espionite aguda, os círculos concêntricos de côr que ela expunha, em frente ao mar, pareciam mensagens secretas a submarinos. Estou há várias semanas a escrever um livro por causa disto. Tenciono acabar antes o da Nathalie Sergueiew, cujo atraso já a mim me irrita, tanto quanto ter desleixado este blog. Os Delaunay ficaram conhecidos pelo simultanismo, movimento a que deram nome. Não é esse, mas é o simultaneismo, o factor da mesma impossibilidade de andar a tempo.