O agente «Tomé» em Moçambique


Finalmente sabe-se mais sobre Manoel Mesquita dos Santos. De acordo com intercepções ISOS efectuadas às comunicações alemãs, fora descoberto que este jornalista, português, residente no Brasil, havia sido recrutado pela Abwehr, o serviço alemão de informações militares, dirigido pelo almrante Wilhelm Canaris. Fluente em quatro línguas, a sua missão seria infiltrar-se na África do Sul e em Moçambique, para obter informação. Foi, no entanto, capturado em Freetown, onde operou Graham Greene, e transferido para Londres. Interrogado no Campo 020, ficaria detido até ao termo da 2ª Guerra. O seu dossier, aberto em 01.01.42, quando se iniciou a sua vigilância, acaba de ser liberto da lei do segredo. De acordo com o que era até agora conhecido, a sua motivação foi essencialmente pecuniária, pois tinha mulher e dois filhos para sustentar. Recebeu formação no manuseio de tinta invisível no Rio de Janeiro. Já recrutado, embarcou de Lisboa para Lourenço Marques em Abril de 1942. Teria enão trinta e cinco anos. Financiado pelos alemães percorreu grande parte da colónia, contactado as autoridades portuguesas. Ao regressar, foi detido. Internado, foi condenado à pena de morte, mas veria a sua sanção comutada e permanecendo sob prisão. O livro, editado pelo PRO [antecessor dos National Archives] britânico, respeitante ao «Camp 020», onde também foi interrogado Rogério de Menezes, refere já detalhadamente o seu caso. Referências ao contactos do agente romeno pró-nazi Adalberto Wamszer em Moçambique com Mesquita dos Santos, constam já do estudo de Stanley Hilton «Hitler's Secret War in South America» (1939-1945), publicado em 1999 pela University of Louisiana Press, em Baton Rouge. A partir de agora, o estudo das redes do Eixo em Moçambique, controladas do lado alemão por Leopold Werz e na vertente italiana por Umberto Campini pode conhecer inesperados desenvolvimentos. A análise que já efectuámos sobre a actuação do escritor Malcolm Muggeridge, o agente do Mi6 em Lourenço Marques terá que ser retomada. Sir Mug, partiria para a capital laurentina um mês depois do agente «Tomé». Instalar-se-ia no Hotel Polana. Tudo isso é uma outra história, à qual voltaremos aqui, um destes dias, ou numa destas noites.

O Espião alemão na Casa de Goa

Apercebo-me de que o meu livro «O Espião Alemão em Goa» vem referido num estudo publicado no «site» da Casa de Goa, da autoria de Amchea Ganvcheô Iadi. Infelizmente o link para a primeira parte não abre, pelo que apenas está acessível a ligação para a segunda parte do artigo. Os nossos agradecimentos pela referência.

Uma bibliografia


A imagem de abertura do «College», confesso, é apetecível. Fica nos EUA. Um dos seus professores, agora jubilado, Ransom Clark, compilou uma bibliografia sobre a 2ª GG, com capítulos dedicados às informações e contra-informações. Vale a pena uma visita, vale a pena arquivar.

Henry Graham Greene, o nosso agente para Portugal


Agradeço à magnífica revista «Mealibra» o ter aceite publicar um artigo que escrevi para comemorar os cem anos do nascimento do escritor Graham Greene. Apresentei-o numa pequena palestra em Sintra, na Casa Museu de Ferreira de Castro, no próprio dia da efeméride. Tive a triste oportunidade de verificar que a nível nacional foi das pouquíssimas coisas que se fizeram para referir tal data. Greene escreveu sobre os serviços secretos, esteve ligado aos serviços secretos. Foi sobre esse seu mundo interior que procurei falar. Permitam-me que arquive aqui o texto.

Se a biografia de uma pessoa se pudesse reduzir simplesmente à sua profissão, diríamos que Henry Graham Greene foi jornalista e foi escritor e que, entre as duas coisas, esteve ligado aos serviços secretos.
Em 1926 era sub-editor do jornal «The Times», de Londres, ao qual chegara com a magra experiência adquirida no ano anterior no «Nottingham Journal».
Três anos depois editaria a sua primeira novela, «The Man Within». Tinha então vinte e cinco anos.
A atracção pela escrita apodera-se, então, dele.
Greene convence o editor Heinemann a garantir-lhe um salário como escritor profissional. Só que os seus livros seguintes são um fracasso, de tal modo que ainda hoje são títulos praticamente ignorados pelo grande público. «The Name of Action» não foi além das 2 000 cópias e «Rumour at Nightfall» ficou-se, pior ainda, pelas 1 200.
Só com «Stanboul Train», editado em 1932, alcançaria um palmarés de alguma respeitabilidade editorial, aproximando-se dos 16 000 exemplares.
O livro narra uma história vivida no Expresso do Oriente, numa viagem até Constantinopla: assassínio, intriga e espionagem misturam-se numa batalha mental que corta a respiração e cria no leitor um sentido de urgência e um tensão perturbadora.
A actividade da escrita é, na vida deste homem, o traço essencial da sua maneira de ser e de um tal modo que praticamente a pessoa e a obra se interligam. Greene escreveu apenas ficção e viveu ficcionalmente.
Quem quisesse escrever a sua biografia encontraria sempre dificuldades de monta, sobretudo no separar a verdade da ilusão.
Ele próprio o reconheceria numa frase sintomática: «se alguém alguma vez tentar escrever uma minha biografia, que complicado que o irá achar e que enganado irá ser».
É neste contexto em que é tão difícil separar a verdade da ficção que procuraremos apreender a sua ligação aos serviços secretos britânicos e, nomeadamente, a sua ligação a Portugal. Continua aqui.

Salazar e Franco: o encontro secreto

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Eram 10 da manhã do dia 10 de Fevereiro de 1942. Ao chegar à Rua da Imprensa à Estrela para iniciar mais um dia habitual de funções, nesses tempos conturbados da II Guerra, o secretário de Oliveira Salazar, constata, perplexo, a ausência do Presidente do Conselho de Ministros. Mas pior: feitos uns contactos entre os círculos que naturalmente deveriam estar a par de qualquer deslocação de Salazar, rapidamente se conclui que ninguém estava prevenido para qualquer eventual saída ou motivo para ausência.
A situação assume foros de paroxismo quando se acrescenta ao rol dos faltosos mais um nome: também o Director da PVDE, o capitão de infantaria Agostinho Lourenço se não achava no seu posto na António Maria Cardoso, nem na residência sita a Avenida Barbosa du Bocage.
Onde estariam todos? Eis a história que conto aqui.

Thomas Harris: o gestor de «Garbo»



Especulou-se sobre o desastre automóvel em que morreu. Protegeu «Kim» Philby e foi amigo de Desmond Bristow. Gerindo o agente «Arabel», criou o célebre «Garbo». Pintor, fazia da espionagem também uma arte.Falar de Tomás Harry é seguramente contar a história do agente catalão Juan Pujol Garcia, cuja carreira ele geriu. Só que o personagem é bem mais rico do que isso e resiste a muitas simplificações, não se livrando porém, como se fosse ele próprio também um objecto estético, à duplicidade das interpretações sobre a verdadeira natureza da sua vida.
Ainda hoje, anos volvidos sobre a sua morte, as suspeitas sobre a lealdade ensombram a sua lenda, havendo quem, nas ligações pessoais comprometedoras que manteve, veja um elemento de ligação à causa soviética à qual foram fiéis muitos dos seus amigos de então.
Citando Anthony Blunt, o jornalista Chapman Pincher, no seu provocante livro «Their trade is treachery», publicado em 1981, imputa-lhe ideias marxistas mas ressalva que, segundo Blunt, ele não seria um agente russo, pelo menos tanto quanto lhe tinha sido dado observar.
Mas já nas memórias que, sob o título «A Game of Moles», editou em 1993, Desmond Bristow citaria a sua própria mulher como partilhando da convicção de que tal ligação era real e demonstrada pelos factos.
Mas é na estética e na arte das sombras e da ambiguidade que se revêm os traços essenciais da sua personalidade multiforme, que Philby consideraria ser a de um espírito intuitivo brilhante. Continua aqui.

Quando a URSS rearmou o III Reich

O Tratado de Versalhes de 1918, que pôs termo à Primeira Grande Guerra, proibiu o rearmamento alemão. Em 1939 a Alemanha invadia o Mundo. Como foi possível organizar esse Exército? Treinando-o secretamente na União Soviética. É nesse contexto que se passará o capítulo de um livro que, atrasado, estou a acabar. Tudo explica que no dia 23 de Agosto de 1939, Vyacheslav Molotov, Comisário do Povo para os Negócios Estrangeiros da comunista URSS assine com Joachim von Ribbentrop, o Ministro dos Negócios Estrangeiros da nazi Alemanha, o Pacto Germano Soviético de Não Agressão. É o momento que os pseudo-historiadores maniquístas, para quem só há o branco e o preto, fingem ignorar. Mas a foto aí está. Por detrás de todos. Stalin observa, sorridente. Pendurado já na parede, em retrato, Lénine, simboliza aquilo que tudo sempre foi: ou não foram os alemães que financiaram a revolução bolchevique que levou os sovietes ao poder, criando aquilo que Stefan Zweig chamou de o novo czarismo. Ou não foi ele quem, em 1917, quando a Alemanha abriu as hostilidades com a Primeira-Guerra Mundial, conduziu à assinatura do Tratado de Brest-Litovsk, o da vergonhosa paz separada?

A Minox


Quando em 1938 o engenheiro letão Walter Zapp inventou a mini câmara de fotografar Minox estava longe de supor que ia criar um artefacto fundamental para o mundo da espionagem. O seu objectivo era então criar apenas um aparelho comercial que, pela sua pequenez e leveza, pudesse ser transportado para todo o lado, facilitando a vida aos fotógrafos amadores. Para se compreender o avanço que significou uma tal máquina é necessário ter uma ideia do que eram em tamanho e modo de funcionamento as máquinas fotográficas de então. Era o tempo do chamado «caixote», grande no tamanho e na complicação. Tecnicamente o problema de Zapp e da sua equipe era então o resolver alguns problemas mecânicos e outros ópticos para fabricar assim a mais pequena câmara do mundo. Primeiro, urgia conseguir a miniaturização do filme, a um quarto do tamanho do clássico 35 milímetros usado em fotografia. Reduzida em dimensão a película era, além disso, alimentada na máquina através de um conjunto de dois carretos fechados, um deles para receber a película já exposta, evitando assim as complicações da introdução e da extracção do rolo e os erros de colocação do mesmo. Depois, importava maximizar a óptima focagem com a melhor nitidez, tudo a partir de lentes de mínimas dimensões. Leve, nítida, fácil e produtiva a Minox superava a sua época. Conseguido este invulgar artefacto, cedo a espionagem se interessou por tal aparelho. Ele permitir-lhe-ia resolver um dos mais sérios problemas que então tinham de enfrentar: o copiar documentos secretos que não poderiam ser directamente subtraídos dos arquivos. Continua aqui.

Caixilhos, placards e areia nos sapatos



Foi num destes últimos fins de semana. Consegui, nem sei à custa de que milagre dar uma escapadela a Londres. No próprio dia da chegada, uma sexta-feira à tarde, fria e chuviscosa, eis, uma vez mais, o Imperial War Museum. Alberga agora uma exposição sobre o Lawrence da Arábia, aquele cujo filme com Peter O'Toole no principal papel, faz sair de lá, ao fim de 216 minutos, com os sapatos cheios de areia. Mas o nosso objectivo era outro. Quem nos visse a mirar como se penduram os «placards» na parede pensar-nos-ia tolinhos. Esperem para ver. O propósito da viagem era ir rever a exposição permanente sobre a guerra secreta e dela, mais propriamente, os caixilhos, as luzes e os placards!. Para quê, é segredo, parte de uma guerra secreta! Quem quiser mais sobre o Lawrence, tente aqui. Quanto ao resto, é só aguardar.

FOIA em regressão


Há neste momento uma polémica nos EUA a propósito da reclassificação de documentos que estavam libertos do sigilo, através do «Freedom of Information Act» [FOIA] e por isso disponíveis para a consulta pública nos National Archives. A propósito disso, alguém escreveu, num forum do OSS o seguinte trecho: «The CIA took 7 years to declassify a one page OSS report on "German artificial blood substitutes" written in 1945». Elucidativo e preocupante para o trabalho dos investigadores.

Germanofilia da aristocracia britânica


Chamam-se National Archives, antes era o Public Record Office. Ficam em Kew Gardens, do outro lado da pequena estação de caminho de ferro que nos leva de Londres ao belíssimos jardins com o mesmo nome. Periodicamente libertam da lei do segredo documentos até aí classificados. Soube hoje, domingo de manhã, que vai sair mais uma leva, desta feita sobre a investigação feita pelo MI5 às simpatias nazis da aristocracia britânica. A notícia vem num jornal escocês, mas a restante imprensa deve fazer-se eco disso. O site dos arquivos britânicos é que ainda não referia nada. O tema é candente. Quem viu o filme «Os despojos do dia», com Anthony Hopkins, sabe que ele é disso que trata. A história inicial está escrita num livro de Kazuo Ishiguro, traduzido em português. Num artigo que pubiquei há anos em Cascais e que talvez dê um livro e de que, entretanto, colocarei aqui um resumo, a propósito da passagem do Duque de Windsor pela casa do banqueiro Ricardo Espírito Santo na Boca do Inferno, referi o assunto da germanofilia da nobreza britânica.Claro que a mãe do duque, Victoria Mary de Teck, era de origem alemã, o que talvez explique muita coisa. Mas isso é para mais tarde, havendo vagar.

O Rei Carol, Nosso Senhor



O destronado Rei Carol da Roménia surge inopinadamente em Portugal em Março de 1941, substituído pelo marechal Antonescu, o seu país retalhado entre o III Reich e a URSS. O mistério que rodeou esta sua aparição ainda hoje permanece. Uma coisa embaraçou, porém, Oliveira Salazar: é que ele seria por direito próprio, Rei de Portugal. Uma história secreta que ainda está por contar.

Parte da História é conhecida. Em 1940 o Rei Carol da Roménia foi destronado pelo Marechal Antonescu e o seu país aderiu à causa nazi.
Escapando-se para Espanha, por onde parecia ficar, Carol surge entretanto em Portugal. Era algo que não agradava aos alemães, para quem a sua vinda para Lisboa tinha o perigo de poder ser preparatória de uma fuga para Inglaterra, onde o rei poderia ser usado como veículo de propaganda. Além do mais na Espanha franquista, estava mais à mão.
No ambiente de intrigas característico daquela época, fervilhavam as teses mais conspirativas. Uma era precisamente a de que Carol teria sido raptado pelos serviços da PVDE, a polícia secreta dirigida pelo Capitão Agostinho Lourenço.
A situação era de todo em todo confusa porque, uns largos meses antes o monarca havia negociado secretamente com as autoridades um plano de vinda para Portugal, plano esse que só poderia ser rejeitado, porque valores mais altos se levantavam.
Na verdade, tudo começara, secretamente uns meses atrás. Leia o resto aqui.

Reactivando um morto!

Este «blog» nasceu para nele ficarem notícias sobre as investigações que há mais de quinze anos venho fazendo sobre as redes estrangeiras de espionagem em Portugal durante a Segunda Guerra e que já deu azo a três livros. Depois surgiu a ideia de que ele funcionasse como arquivo do que fosse surgindo como informação relevante para o meu trabalho. A verdade é que ele acabou por ser nem uma coisa nem outra. Ficou parado, com um asteróide petrificado no vazio do espaço. Neste dia de chuva, decidi-me. Vou reactivá-lo: com o que fiz, com o que farei e com aquilo que posso fazer. Veremos. Aliás tenho um livro em fase final, com um mês de atraso e outro na forja. E tenho mais novidades, se me permitem a vaidade, que a seu tempo virão ao de cima. Vamos pois reagir!