Ralph Fox: uma verdade pouco nua


No Verão de 1936, Ralph Fox, um fundador do partido comunista britânico, que havia escrito uma biografia de Lénine e outros livros sobre o marxismo, veio a Portugal, a caminho de Espanha, onde se alistaria nas Brigadas Internacionais, contra as forças de Franco. A passagem por Lisboa, que, apesar de ter durado apenas uns dias, daria um livro, que seria editado em 1937, depois da sua morte, que ocorreria nesse mesmo ano. O livro visa mostrar o comprometimento do governo de Oliveira Salazar com os nacionalistas espanhóis e a complacência dos ingleses quanto a tal facto. Pelo caminho fica uma descrição crítica do regime da Ditadura Nacional que nos governava e do próprio país e seus nacionais. Embora o autor refira incidentalmente que tentava descobrir «se os carregamentos de armas continuavam a ocorrer», a verdade é que no livro as referências aos negócios de armamento via Lisboa limitam-se a pouco mais do que conversas ouvidas no bar do Hotel Vitória, então um centro de concentração fascista e hoje, paradoxo do destino, uma das sede do PCP. O título na edição portuguesa é o mesmo da edição original inglesa «Portugal Now». O que está a mais é o subtítulo: «um espião comunista no Estado Novo». Porque sobre espionagem o livro, atraente como todos os da editora Tinta da China, tem nada. Tem ironia, tem inexactidões, tem observações interessantes, outras simplórias, mas merecia uma apresentação que não o desvirtuasse. Como diz o autor, a pretexto da estátua do Eça de Queirós, trata-se de «uma verdade pouco nua».