Uma carta num livro

Ao escrever este livro apaixonei-me por esta mulher. Morreu aos trinta e oito anos, depois de uma vida em que viveu múltiplas vidas. Por causa dela fui três vezes a Bristol, em busca de uma sombra sua, por causa dela calcorreei as ruas de Londres para encontrar a casa onde viveu, e que uma bomba na Segunda Guerra arrasou, vagueei, tentando senti-la, pela Praça da Ópera em Paris, local para onde se exilaram os pais, vindos da Rússia czarista. Estive em São Petersburgo, local onde nasceu em 1912, com ela no pensamento. Ao descer em Zurique uma pequena rua empedrada entrei numa livraria de livros russos, perdi-me pelo incompreensível cirícilo, marquei encontro com uma desconhecida em frente ao Crédit, eu, qual candidato a namorado, com um livro do Graham Greene, ostensivo, a assinalar que era eu, ela, tímida, a dar-me tudo o que sabia sobre a honra perdida da Pátria de Puskin, uma lágrima impossível de suster ao mostrar-me uma entrevista da filha do general Dénikin.
Segui todos os seus passos, a viagem a pé Paris/Varsóvia, em 1933, com vinte e um anos de entusiasmo, a viagem de bicicleta Paris/Líbano, em 1938, uma coragem inaudita, sempre a solidão a persegui-la, a arte e a escrita como sublimação. Vi-a, como se a tivesse visto, a subir a pé, em 1943, a Avenida da Liberdade em Lisboa, agente dupla ao serviço da causa aliada.
Encontrei-lhe, hoje nonagenário, um indiferente marido, num lugar perdido no Massachusetts. Li as cartas que escreveu, doente, a vida a escoar-se-lhe e ainda movendo-a uma raiva gigantesca de viver.
Por causa desta mulher escrevi um livro que é uma despercebida carta de amor ao que de melhor pode haver numa mulher. Hoje atrevo-me a dizê-lo, talvez pela razão ridícula de ser o dia da mulher, que isso me dói, por ela. Talvez não devesse dizê-lo. Mas é-me impossível evitar ter acordado com isso no pensamento.