Ian Fleming: o gosto amargo

O JL pediu-me e publicou neste último número um pequeno texto sobre «um espião que tivesse a ver com a Literatura»:
Fiquei embaraçado porque a escolha é vasta.
Acabou por sair isto que, por estar já divulgado, permito-me citar, vendo que o tema da capa do jornal é «Espiões, literatura, sedução e mistério»:
«Podia ser Graham Greene, que tendo estado no desk português da Secção V do MI6 foi um notável escritor, ou Malcolm Muggeridge, que serviu o MI6 em Lourenço Marques e nos legou uma interessante obra literária, ou mais antigo, Somerset Maugham que, a mando dos serviços britânicos, esteve na Rússia czarista, com fundos clandestinos, a tentar salvar o governo de Kerensky. Era “chic” que fosse John Le Carré, nome literário que adoptou David Corwell, colaborador também do MI6 e do MI5 e cujas personagens têm um toque de polimento académico e por cuja escrita perpassa uma sempre bem recebida crítica ao “establishement” da comunidade oficial de “intelligence”. Escolhi Ian Lancaster Fleming e a sua criatura James Bond, porque, como escrevi num livro que editei quando do centenário do primeiro, tratam-se de uma e da mesma pessoa, uma interessante autobiografia comum. Há nos seus livros uma tragédia existencial e uma simbólica alquímica que Hollywodd malbaratou tornando 007 uma figura burlesca. Há uma transmigração de almas, como no caso do carro que fala, o “Chitty Chitty Bang Bang”, que escreveu estando no hospital a iniciar o processo que o levaria à morte. Escolhi-o porque «depois de uma certa idade, ninguém deve relacionar-se com alguém que deixe numa pessoa um gosto amargo no espírito ou no palato; méfiez-vous du sang apre», escreveu no seu bloco de apontamentos, a vida a escoar-se-lhe. Escolhi-o porque “You Only Live Twice”»..