Anthony Haigh, notícia no APN


Na sua edição de 30 de Dezembro de 1943 o jornal bilingue The Anglo-Portuguese News, dirigido por Luiz Marques [veja-se sobre a sua vida o livro Notícias de uma Família Anglo-Portuguesa, de Ana Vicente, aqui], casado com Susan Antonia Dorothea Priestley Lowndes [ver aqui a notícia necrológica], pai do recentemente falecido Advogado Paulo Lowndes Marques, noticiava que Anthony Haigh, que durante três anos desempenhara a função de Primeiro Secretário da Embaixada britânica em Lisboa, fora nomeado para um cargo no Foreign Office, em Londres, pelo que em breve deixaria a capital. 
O jornal registava o contributo do diplomata para com o jornal onde editara alguns dos seus estudos arqueológicos.
O APN tinha motivos para anotar a circunstância com relevo, pois o diplomata havia sido um instrumento essencial para o apoio à sua publicação enquanto órgão de imprensa em língua língua existente que subsistia no exterior, embora em condições adversas, inclusivamente no plano financeiro.


Haigh, funcionário de actuação discreta, havia sido também essencial à concretização de um facto político da maior relevância, a visita de uma delegação da Universidade de Oxford a Portugal para o efeito da aposição a 19 de Abril de 1941 das insígnias de doutor honoris causa a Oliveira Salazar [ver a cota para o documento oficial nos Arquivos Nacionais aqui], tributo de respeito com significado diplomático mais do que evidente naquele momento.

Regressado das sombras


Mantive este blog recolhido durante mais de um ano. Tinha-o começado em 2005. Oito anos de distância. 
Arquivei nele parte do que foi o meu empenhamento pelo tema da guerra secreta em Portugal, matéria sobre a qual reuni, para estudo, centenas de livros, documentos, sobre a qual entrevistei pessoas, fiz inúmeras viagens, tenho um mundo de histórias para contar.
Na altura sentia-me um cavaleiro solitário. Apenas o António José Telo tinha escrito um pequeno livro dedicado ao mundo da dita "espionagem" e também da propaganda em Portugal entre 1939 e 1945. Para além dele, só a Júlia Leitão de Barros escrevera para a revista História um artigo sobre a "rede Shell". 
Depois de mim Rui Araújo foi o primeiro a afirmar-se sobre a matéria sobretudo com o seu segundo livro construído a partir dos diários de Guy Liddel.
Hoje o tema popularizou-se, passou para as revistas, para versões simplificadas e ficcionadas. que só o desvirtuaram e criaram um público um apetite precário para as facetas meramente anedóticas do assunto, as que procurei evitar trabalhando sobre fontes primárias e tentado confirmá-las cruzando informações, tantas vezes, mesmo assim, errando.
No panorama surgiram entretanto autores estrangeiros que o mercado editorial consagrou, que não conhecendo sequer a língua portuguesa escrevem sobre a Lisboa dos espiões e nós, provincianos por atavismo, curvamos a cerviz, rendidos ao que vem de fora.
Não consigo contar as horas nem o esforço que significou tudo quanto fiz, o dispêndio financeiro, as crises de alma.
Passei pelo meu mau momento, aquele em que a meio do percurso o corredor de fundo hesita. Lancei então os olhos para o exterior, tentando encontrar ali um espaço de diálogo através de um blog escrito com o meu sofrível inglês, o 24 Land. O resultado foi conseguido, o único senão a minha irregularidade na relação com a iniciativa.
Hoje o panorama mudou.
Irene Pimentel, com responsabilidades universitárias, acaba de editar um volume sobre o tema na sua generalidade, que aguardo para uma leitura atenta. O mundo académico começa a estar atento ao tema. Outro livros, cuidadosos, surgiram e estão em geração.
Tudo isto levou-me a rever a minha ligação ao tópico a que me vinculara. Reponho hoje no ar este blog onde ficará o sinal do reencontro. Para o 24Land passarão as linhas essenciais do que aqui se disser.
Como ilustração deste post vai a capa do meu primeiro livro, escrito em 1995, hoje felizmente sumido salvo em um ou outro alfarrabista, aventura ingénua de um tempo em que eu balbuciava ainda, juntando ali crónicas que deixara dispersas por jornais, muitas sob um pseudónimo que só muito mais tarde revelaria. É a demonstração gráfica de uma longa caminhada e dos tropeções que se dão quando se prossegue entre veredas por vezes na noite escura das dificuldades que a vida cria.
Gostava que esta minha declaração não fosse tomada como um sinal de arrogância intelectual nem de falsa humildade, apenas como a expressão de quem se liga ao mundo não apenas pela racionalidade do intelecto mas igualmente pelos sentimentos do coração e que ganha sobretudo apego ao que o cerca como parte do Mundo total de que faz parte.
Ao findar do ano, talvez isto assim faça sentido. Bom Ano!