Agenda alemã: a seda e o ferro


O esforço de guerra foi feito no campo das informações. As informações eram as que se recolhiam por espionagem e as que se difundiam pela propaganda.
Em Portugal as duas partes contendoras convergiam em iniciativas.
Esta agenda alemã para o ano de 1943 é disso exemplo sintomático no sector da propaganda.
Impressa em formato bolso teve dono, aparentemente um senhora , pois que, com cuidada caligrafia em estilo gótico numa das folhas finais dedicadas aos endereços consta «diversas coisas que o José Manuel comprou para meu enxoval». E ali estão três anotações, uma delas oito metros de seda por 232 escudos.

Sabendo que Portugal é, por tradição, uma Nação de forte implantação da religião católica, tudo nela converge em torno dos conceitos que possam identificar o nazismo com tal crença, atacando o bolchevismo como ateu. Além disso, faz a propaganda da Alemanha como o local de esperança por uma vida melhor. E foca as facetas que demonstram a natureza socialista (nacional -) do regime de modo a atrair o anti-capitalismo à esquerda.

Algumas citações esclarecedoras todas do Führer Adolph Hitler, todas aliciantes, todas desmentidas pelo que foi a História do III Reich:

-» Os direitos humanos estão acima dos direitos do Estado

-» Deus, seguramente, não criou o mundo só para os ingleses

-» O combate contra a alta finança internacional tornou-se um dos pontos capitais do programa na luta da nação alemã pela sua independência económica e pela sua liberdade

-» O judaísmo nunca foi uma religião, mas sim e sempre um povo com características raciais bem definidas

-» A finalidade do exército alemão não é senão a duma escola que ensina todos os alemães a entenderem-se e a viver entre si com harmonia

-» A luta contra a concepção materialista do Universo e em favor duma comunidade popular, serve tanto os interesses da nação alemã como ao bem da nossa fé crsitã

O seu miolo diário também é aproveitado para igual propósito. Na folha dedicada aos primeiro dias de Fevereiro, esta agenda ,que se anuncia como um «brinde do Serviço Alemão de Informações», mostra uma foto de um soldado alemão, perfilado e em continência, com a seguinte legenda: «Soldado alemão. A sua fisionomia clara e luminosa exprime a consciência límpida das virtudes superiores duma elevada civilização, cuja defesa lhe está confiada». E como título «O defensor da liberdade da Europa cristã».
A meio desse mês duas fotos, uma, a de uma fábrica, com a legenda «Eliminação da vida religiosa na União Soviética, transformação duma igreja numa central eléctrica» e na contra-folha e de uma procissão com o título «A vida religiosa na Alemanha, intronização do novo Arcebispo de Colónia».
A noção repete-se, com menções cruzadas à miséria e à fome da «criancinha» na União Soviética e a todos os temas que evidenciam a ideia. Nenhuma é, curiosamente, alusiva a Portugal. Apenas uma, ibérica, mostra o acto de condecoração do general espanhol Muñoz Grande, comandante da Divisão Azul, a ser investido no grau de Cavaleiro da Cruz de Ferro.
Os próprios dias da agenda contêm nota da festividade em causa, redigida com subtileza convidativa: 25 de Dezembro, que nesse ano foi um Sábado é o «dia consagrado à Festa da Família», o 1 de Dezembro o «dia consagrado à autonomia da Pátria Portuguesa», o 5 de Outubro o «dia consagrado aos heróis e à proclamação da República», o dia 1 de Janeiro o «dia consagrado à Fraternidade Universal».
Todos, católicos, livres-pensadores, socialistas não comunistas, ali encontram uma piscadela de olho de apelo e sedução. Tal como os oito metros de seda da sua dona.



The Historical Society em tempo de guerra...


A Guerra trouxe a necessidade de uma intensificação das relações culturais entre a Grã-Bretanha e Portugal, parte de um jogo diplomático destinado a reforçar os termos da Aliança entre os dois Países. 
Encontrei, num velho alfarrabista, este boletim relativo ao quarto ano de actuação do "Lisbon Branch", The Historical Association.
O exemplar vem datado de 1940. Menciona como membros do seu "Council" Mrs. Jayne, como presidente, e, entre tantos outros o Reverendo J. J. Crowley, M. A.
Quanto a este cruzei-me com a sua existência quando estudei a rede clandestina organizada por John Beevor ao serviço do SOE. 
Com discrição dizia-se no relatório anual, justificando não se terem atingido os objectivos propostos que alguns membros acharam que poderiam efectuar trabalhos úteis de assistência administrativa a vários outros serviços em tempo de guerra que careciam da sua colaboração.
Esclarecedor.