António Correia: o sacrifício de uma causa


Uma das facetas que me impressionaram quando escrevi o livro Traição a Salazar e reconstitui com algum detalhe a rede do SOE, conhecida como a "rede Shell" - criada pelos britânicos entre 1940 e 1941 para deter, com a intensa participação de patriotas portugueses, um eventual avanço alemão sobre a Península Ibérica - foi a circunstância de a família e os amigos dos que fui sabendo que tinham nela participado ignoravam o facto. Mesmo quando essa participação lhes custou a prisão, às mãos da PVDE, ou inclusivamente a deportação, incluindo para o Tarrafal: sabiam, ao que me apercebi de que teriam sido presos por oposição ao regime de Salazar, o que era natural dada a ideologia política que perfilhavam e as actividades política de Oposição em que estavam envolvidos, não que integrassem aquela estrutura clandestina organizada por John Beevor e que seria desmantelada por causa da rivalidade entre a Legião Portuguesa e a PVDE, a Polícia de Vigilância de de Defesa do Estado.

Eis o que se passou ao ler o livro de memórias de Fernando Mouga, intitulado Janela da Memória
Advogado em Viseu, membro do Partido Comunista Português e seu destacado militante - como descreve nessa obra - era genro do Capitão António Correia, natural de S. Pedro de France (Viseu), o agente  H.327a, a quem tributa uma intensa actividade clandestina em prol da causa aliada, em algumas comovidas páginas daquele seu livro [271 e seguintes].
Pelo escrito se entende que à ligação anglófila de António Correia não seria estranha a circunstância de ter obtido em Inglaterra «(...) o diploma de piloto-aviador de combate que fez dele um dos pioneiros da aviação militar portuguesa e instrutor (...)».
E ganha-se conhecimento do que o ligou ao que acima se refere, o envolvimento arriscado do que seria uma estrutura subversiva a agir no que fosse necessário em termos de sabotagem e propaganda de forma a contrariar o que se tinha então por certo, a concretização da Operação Félix, a passagem das tropas do III Reich pela Península Ibérica, com ocupação, rumo a Gibraltar.
Citando as palavras de seu genro naquele seu livro a propósito do que foi a disponibilidade de António Correia: 

«No auge da ofensiva militar da Alemanha nazi dirigiu uma carta ao embaixador da Inglaterra em Lisboa na qual (ao que me resumiu) se afirmava o apoio dos republicanos de Viseu à causa dos Aliados e se censurava a posição de Salazar, tido por colaborador com a política de Hitler».

Só que, o resultado desse oferecimento não o revela a interessante obra, seguramente porque o silenciou o sogro do autor. O mesmo se diga quanto ao funesto resultado do corajoso acto de disponibilidade para colaborar no combate às força do Eixo nazi-fascista. Assim, Fernando Mouga dá-nos conta que apenas sabe ou é apenas quanto revela, que: «(...) por denúncia de alguém a quem teria confiado o acto e o conteúdo do escrito (sempre suspeitou de um sujeito ao tempo representante da Shell em Viseu) ou em consequência de violação de correspondência ou, finalmente, por iniciativa tomada na própria Embaixada, o escrito chegou aos olhos da polícia política (...)» o que levou à sua prisão pela Trafaria, Aljube, Tarrafal e Peniche.

A investigação que levei a cabo e que seguramente irá prosseguir, permitiu concluir que a prisão de António Correia se ficou a dever ao  desmantelamento pela PVDE da rede Coimbra/Viseu que estava organizada em torno da Companhia Shell, nomeadamente após a detenção e interrogatório de Francisco Baptista da Silva, o agente do SOE H.327, responsável da empresa em Viseu, que articulava com o médico de Coimbra Ferreira da Silva. A partir daí a polícia conseguiria reconstituir a actuação do valoroso capitão, colaborador da Seara Nova, fundador do jornal República de Viseu, autor de dois livros: Poucos conhecem os Açores e Palavras em Eco, de que consegui encontrar imagens das respectivas capas. Denúncia, sim, mas de quem estava, como ele, comprometido na mesma frente de luta.
Preso, António Correia seria visitado pelo então estudante de Direito Fernando Mouga que aproveitava o ensejo para lhe entregar correspondência em cujas entrelinhas escrevia com sumo de limão as mensagens que se pretendia ocultar da censura prisional.
Restituído à liberdade, no final da guerra trabalharia no comércio em Lisboa e e em Viseu, na Seara Nova, ao lado de Câmara Reis e em Vila da Feira, leccionando num Colégio até ter sido despedido devido à pressão sobre o director do estabelecimento de ensino efectuada pela agora denominada PIDE que o perseguiria até ao final dos seus dias, apreendendo-lhe inclusivamente os livros que escrevera.

Hoje, dia 5 de Outubro creio que esta singela homenagem vale como testemunho e exemplo de uma causa pela qual houve quem arriscasse interesses, comodidades e a própria liberdade.