Carlos Bleck: luz sobre a morte de Leslie Howard


Quando escrevi neste blog por mais de uma vez [ver aqui] sobre a morte do actor Leslie Howard, na sequência de um livro que redigi em 2006, não desisti de voltar ao assunto, sempre receando que, num qualquer destes dias, outro se decidisse a fazê-lo e eu amortecesse em entusiasmo por pensar estupidamente - como sucede nestes casos - que agora já não valeria a pena. 
Sucede que ainda ninguém voltou ao tema e eu continuo a alimentar dúvidas sobre o realmente se passou naquele fatídico dia com treze passageiros a bordo do avião da KLM ao serviço da BOAC que, depois de ter saído de Lisboa rumo a Bristol seria atacado por uma esquadrilha da Luftwaffe ao sobrevoar o golfo da Biscaia.
O que menos esperava é ter cruzado com aquele que terá sido a última pessoa «a apertar-lhe a mão» no Aeroporto da Portela antes de a aeronave "Ibis" ter partido rumo à morte. Sucedeu ontem, porque aproveitei umas breves horas da minha profissão para ir a um arquivo em busca de material para um outro livro que anda há muito atrasado e o meu tempo a escoar-se. Tiveram a gentileza de me emprestar a obra rara, editada em 1962, do aviador Carlos Eduardo Bleck, denominada Rumo à Índia, crónica de vida e memória da sua viagem aérea àquelas remotas paragens efectuada em 1934, remate de coragem e tenacidade, heroísmo e aventura.
E ali leio (página 79) o seu desmentido quanto a algumas das teses especulativas que teriam levado ao ataque alemão à linha de Lisboa, sobretudo as que partem do pressuposto de que aquele avião especificamente teria sido o alvo, nomeadamente por estarem os alemães convencidos de que ali viajaria também o próprio Churchill, regressado do Norte de África via Lisboa, de onde o voo se iniciara.
«Imprudência, condenável a todos os títulos» assim lhe chama Bleck ao que pudesse ter sido o uso pelo primeiro-ministro britânico de uma tal rota para regresso a casa, «rota praticamente dominada pela Aviação Militar alemã estacionada em território francês» e «em pleno dia e a baixa altitude, num avião comercial, lento, e sem quaisquer meios ou possibilidades de defesa».
Mas o que há a somar a este argumento lógico é um facto, a que aludi também no que escrevi, o ter havido já situações anteriores de ataque naquela linha que estaria, supostamente, defendida por um "gentlemen agreement" de protecção. 
Cito na íntegra o excerto alusivo: «E também porque, contrariamente ao que esses "historiadores" relatam, não havia sido este o primeiro ataque verificado na rota Inglaterra-Lisboa a aviões comerciais, porquanto, o máximo de uma semana antes da perda do avião de Teppas, havia sido  "interceptado" sobre a Biscaia um outro DC-3, este comandado pelo Capitão Parmentier, quando voava da Inglaterra para Portugal e depois aterrava na Portela com a ponta da asa esquerda despedaçada e os planos e fuselagem esburacados por projécteis, e de cujo ataque, segundo me contou Paramantier à chegada, havia escapado devido a ter surgido uma providencial formação espessa de nuvens para a qual apontou, ziguezagueando, e, entrando  nela, fez perder o "contacto" com os atacantes».
Eis, pois, como, o acaso traz mais luz do que o sistema.