Sonia Delaunay: círculos suspeitos


Abriu no Centro de Arte Moderna da Fundação Gulbenkian uma exposição dedicada aos Delaunay. A imprensa fez-se eco disso, Cito, por exemplo, o escrito por Lucinda Canelas no jornal Público [ver aqui].
Circunstâncias da vida não me permitiram prosseguir a investigação que levava a cabo sobre a sua passagem por Portugal, nomeadamente o insólito episódio da detenção de Sonia pelas autoridades portuguesas, na sequência de uma denúncia anónima atinente a uma alegada suspeita de actividades de espionagem em Vila do Conde, a favor dos alemães. Estava-se no ano de 1916, em plena primeira guerra mundial.

O percurso para a escrita desse livro levou-me há anos a uma ida ao local, onde fotografei a casa, onde habitou, a "Vila Simultânea", que vim a saber pertencia à família do meu colega de profissão e amigo Francisco Teixeira da Mota.

A mesma ânsia levou-me então à moderna Biblioteca Municipal onde solicitei tudo o que houvesse sobre a pintora, mas havia pouco. 
Quis, porém, o acaso que me tem acompanhado em todas as investigações sobre estes temas da guerra secreta, e afinal, no deambular pela vida, que precisamente no lugar ao lado onde me sentara, com visível curiosidade sobre o que eu estava a folhear - afinal uns catálogos, um dos quais o de uma exposição local ocorrida em tempos - estivesse um leitor que, desinteressado do que tinha em frente como livro, mas de olhar oblíquo sobre a minha pessoa, o qual não se conteve e me perguntou o que procurava eu sobre Sonia Delaunay, a pintora ucraniana que tinha vivido naquela vila. Expliquei, com aquela timidez, de quem se sente surpreendido num segredo que nem o era, alegando que estava a escrever sobre ela. Respondeu-me, para meu espanto quanto à coincidência: «é que eu sou filho da criada que trabalhou na casa deles!»
Foi assim, e esse assim da surpresa trouxe-me a ideia de que seria um sinal de que aquele livro seria escrito. Não me disse o Deus do Tempo quando.
Mais tarde quando Mário Cláudio publicou o seu opúsculo ficcional sobre Amadeo, li-o, linha a linha, tomando notas, assim como tudo quanto fui encontrando sobre Eduardo Viana, Almada, os "modernistas", em suma, o que pudesse ter relacionado com o tema pelo qual me apaixonara. E o entusiasmo redobrou. Mas foi fugaz, atropelado por tudo quanto torna um Homem em muitos homens.
Quando soube que ia haver aquilo que hoje está na Gulbenkian como exposição marquei-me um prazo. Não o cumpri.
Hoje, Domingo, deixo aqui dois excertos do que talvez ainda seja livro, esse livro sonhado, surgido pela hipnose dos círculos concêntricos de intensa cor. Tristonhos excertos, mas são pegada da minha passagem por aquele caminho. 

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(...)

Do prefácio: «No panorama da pintura europeia o casal Delaunay é um nome de referência. A sua biografia tem a ver com Portugal. Aqui viveram momentos fundamentais da sua vida artística. Foi no nosso país e por via da luminosidade invulgar do mesmo, que o cromatismo típico da sua linguagem pictórica ganhou individualidade e intensidade. Mas foi aqui que se viram envolvidos numa história de espionagem, precisamente por causa da sua invulgar pintura.
Apercebi-me da história em dois momentos. Primeiro, ao ter-me caído nas mãos um catálogo com ilustrações dos seus trabalhos e um apontamento biográfico sobre as suas vidas. O livro atraiu-me devido à luminosidade da sua pintura, como se me cegasse um estonteante sol. Depois, foi porque o Paulo Ferreira publicou cartas que eles trocaram com alguns artistas portugueses seus contemporâneos nesta época da atribulada vivência em Portugal. Finalmente, tudo se redimensionou quando a viúva do Almada Negreiros, Sarah Afonso deu à estampa as conversas a propósito da sua vida, e ali vinha, inesperadamente, uma nova pista quanto ao caso dos Delaunay e ao propalado envolvimento de Sonia com actividades de espionagem em Portugal, durante a Primeira Guerra: Sarah julgava que Almeida Negreiros deu azo ao caso, por causa do K4, Quadrado Azul.
Decidi-me agora a editar a história. Não há muito para contar. Se soubesse desenhava-a, em círculos de cor.»

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Sobre a vida em Vila do Conde: «Mas Lisboa é, porém, apenas um ponto da sua passagem por Portugal. Por sugestão de Eduardo Viana [1], optam por residirem em Vila do Conde, lugar para eles idílico, em cuja Rua Bento de Freitas, nº 7, a antiga Rua dos Banhos, encontram uma casa aprazível, numa ambiência inundada de luz e de mar, propícia à criação artística: inspirados no seu estilo artístico, cognominam a casa como a «Vila Simultânea». Ainda hoje ali se encontra, com uma lápida alusiva.
O azul do Atlântico fica em frente. Mas é a luz, a tonalidade da luminosidade solar que mais os impressiona. Robert Delaunay escreve a propósito: «les rayons de soleil plus humains, plus proches, du Portugal».
É nesse local que pintam com denodo. Trabalham arduamente no jardom, entre plantas exuberantes e passeiam-se à noite ao luar.
Cuidadosos com a técnica, fabricam eles próprios as tintas que usam, visando o maior tempo de conservação dos quadros. Amistosos, enviam para o próprio Amadeo o produto do seu fabrico artesanal.
É aqui que Sonia se entusiasma pela técnica da pintura a cera, no que contagia o próprio Eduardo Viana, companhia constante no local. Muitos dos seus quadros deste período evidenciam a ascendência da pintura dos Delaunay [2] .
Amadeo, nutre profunda amizade por eles, vistando-os amiúde, a partir da sua casa em Manhufe, onde se fixará, até à sua morte em Espinho em 1918.
Sam Halpert , velho amigo de Robert, fica até 1916.
No Natal dese ano, os Delaunay estão como em casa.
Amadeo surge-lhes com um bolo, evidência de uma amizade. Sonia retribui, confeccionando para a mulher deste, Lucie Pecetto, um colar «simultâneo».
Imersos numa ambiência estimulante, a produção sucede a ritmo infrene.
Os seus quadros têm grandes dimensões, as telas são pintadas em partes e cozidas para formar o conjunto. Como forma de resolução do problema, utilizam a técnica renascentista de integrar as linhas de separação dos pedaços de tela nas linhas de força do próprio quadro, o espectador não nota a diferença [3]
«Tem-se a impressão de viver num país de sonho», escreve Sonia numa das suas cartas, fascinada pela «luz exaltante de todas as cores» do país que lhe é dado observar. Congestionados pela natureza circundante, podem gabar-se de que ali «os nossos olhos vão até ao sol».
Inseridos amistosamente na comunidade da cultura portuguesa, o espírito gregário leva-os a implantar uma associação de artistas a que apõem o nome de «Corporation Nouvelle» [«Nova Corporação»], nela englobando os seus amigos portugueses, Amadeu Souza Cardoso, Eduardo Viana, Almada Negreiros, e estendendo a filiação, numa relação de distância, a D. Rossine - uma pintora russa residente em Paris - e aos poetas Guillaume Apollinaire e Blaise Cendrars [4].
A influência francesa é então omnipresente nesse sector intelectual em ascensão.
Levas sucessivas de pintores haviam feito a rota de Paris, local hipnótico para a sua formação técnica e humana, mas o início da Primeira Guerra trá-los-ia de volta a Portugal. 
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Sobre o incidente da suspeita de espionagem: «Chega entretanto o fatídico mês de Abril de 1916. Robert tem de se deslocar a Vigo, para se sujeitar a uma junta de revisão, devido à sua condição de reformado militar. A mulher acompanha-o.
Mas tem de regressar a Portugal. [5] Está longe de imaginar o que a espera: sem que de imediato se aperceba porquê «Madame é retida», como prontamente informa Sousa Cardoso, em carta expedida para o marido, já instalado em Vigo.
A suspeita de espionagem acaba por surgir, penumbrosa demais para a sua alma de pintora da luz.
Todos os ingredientes ajudavam a compor este quadro.
Uma denúncia teria dado azo à detenção.
Os factores de dúvida acumulavam-se em torno de si.
Primeiro, a nacionalidade da denunciada, russa e como tal na ocasião originária de um país que havia feito um odioso acordo de paz com Berlim.
Depois, a sua vivência, esquiva e cosmopolita, estranha numa ambiência provinciana, susceptível de gerar a maldade dos rumores e da suspeição em relação ao que seriam os seus verdadeiros motivos e fins.
Além disso e sobretudo, a própria natureza e teor dos quadros que a artista pintava, nomeadamente os célebres «discos simultâneos», em que muitos viam a expressão típica de mensagens para os submarinos alemães que passavam ao largo.
Finalmente os contactos que o casal manteria com artistas alemães, entre os quais A. Macke, Franz Marc e Paul Klee.
Vítima de uma intriga, vê com mal contido espanto as autoridades portuguesas confiscarem-lhe o passaporte, para logo de seguida ser informada que a empregada doméstica, Beatriz Morais, havia sido presa na fronteira para Espanha.
Na sequência das investigações, conduzidas pela 2ª secção da Polícia Judiciária, o próprio Eduardo Viana é, por sua vez, igualmente detido, à ordem das autoridades administrativas e sob o pretexto das suas assíduas visitas a casa dos Delaunay.
Sonia Delaunay, por determinação das autoridades é colocada sob o regime de residência fixa.
Acusado de «traidor da Pátria» e de «conspirador», como se lamentaria numa carta de 14 de Abril, suportaria múltiplas humilhações no cárcere.
O pesadelo da situação mantém-se durante três semanas, durante as quais o alerta é passado a todo o grupo de Lisboa, que, na medida do possível a cada um move influências pessoais e políticas em favor do esclarecimento do caso.
Na «Brasileira» não se fala em outra coisa.
Amadeo desloca-se ao Porto para tentar intervir junto das autoridades no sentido de que esclareçam a situação. Em 20 de Abril de 1916 escreve a Robert Delaunay dando conta de que o responsável da referida denúncia anónima seria um empregado do Consulado de França.
As redacções dos jornais são postas ao corrente.
Finalmente verificada a natureza caluniosa da denúncia, sob a sibilina alegação de se ter tratado de uma «gaffe», os suspeitos são isentos de responsabilidades, mas estão crivados de rancor, a resistência moral enfraquecida por esta insólita e abstrusa situação.
Numa carta, que Paulo Ferreira arquivaria numa colectânea amigável saída em 1981, pela PUF, Eduardo Viana ainda acalentava esperanças, agora que o assunto estava nas mãos de um advogado, que Sonia fosse largamente indemnizada «par ce cochon de consul de France, l’ auteur de toute cette gaffe».
Viana é igualmente liberto, mas a prisão havia-o feito adoecer. Durante as buscas policiais alguns dos seus quadros haviam sido danificados.
A passagem do tempo fez esquecer o episódio e desinteressou os envolvidos de tentarem apurar quem seriam os responsáveis pelo evento.
(...) 
Uns meses depois regressam a Portugal, para se fixarem em Valença do Minho. 
Para que o seu regresso fosse possível tiveram intervenção o ministro das Finanças e o ministro do Interior. [6]
A população mais ilustrada local saúda a sua presença.
Animados, reacende o seu enamoramento pelo país.
O Convento jesuíta local proporciona-lhes uma sala para que possam trabalhar com sossego e o mínimo de condições de conforto.
A Santa Casa da Misericórdia local encomenda-lhes um painel em azulejos para o Asilo Fonseca. Os Delaunay pintam-no, dando origem ao quadro «Hommage ai Donateur».
A sua produção recrudesce.
Os Delaunay ficarão em Portugal até ao princípio de 1917. 
Os últimos meses de vida em Portugal passam-nos no Asilo Fonseca em Valença, para o qual pintam um azulejo «L’hommage au donateur».
Depois disso residirão em Espanha, até 1920.
Um ano depois de terem partido, morre Amadeo, com trinta e um anos de idade 
(...)
O caso do suposto envolvimento dos Delaunay com a espionagem ficou como uma bizarria insólita que os tempos de então proporcionavam. 
Assim o conheci e assim o assumi. 
O mais interessante é que o próprio Almada Negreiros pudesse, afinal, ter tido um eventual papel, ainda que involuntário, no episódio. 
Almada tinha pelos Delaunaly uma inflamada admiração. Ilustra-o, no seu estilo excessivo, uma carta sua para Sónia: «amanhã dar-lhe-ei toda a minha alma epilética de admiração por vós». 
Resulta isso das «Conversas com Sarah Afonso» editadas em 1982 por Maria José Almada Negreiros na Arcádia. 
Afonso foi, como se sabe, a mulher do pintor, poeta e pensador José de Almada Negreiros. Maria José é a sua neta. 
Segundo Sarah Afonso a prisão dos Delaunay ficara a dever-se involuntariamente a Almada. 
Este havia escrito o conto «K4, quadrado azul». 
Até então inédito, o manuscrito havia sido então levado por Amadeu Souza Cardoso, o qual se prontifica a fazêlo imprimir no Porto, onde se encontrariam meios de tipografia mais acessíveis. 
Passado o tempo, a impaciência do seu autor começa a não se compadecer com as delongas. 
Dispara-lhe então um telegrama «Dá notícias K4 quadrado azul». 
Teria sido o alerta dos polícias. «Ao Almada não disseram nada, não sei porquê, mas ao Amadeu foram perguntar o que era aquilo e depois todo o grupo foi interrogado», contaria Sarah a sua neta. 
Presos por causa da simultaneidade de um telegrama enigmático, vítimas afinal do «simultanismo», ou joguetes da cupidez argentária de um funcionário consular gaulês, como foi? A história continua por fazer.



Notas
[1] Bárbara Ornellas coloca em dúvida que o conselho tenha provindo de Viana, acrescentando um «provavelmente» à frase onde dá conta desse aconselhamento por amigos portugueses quanto à deslocação para Vila do Conde.
[2] É o caso [citado por Bárbara Ornellas] de «La Peteite» [1916], «Bonecos Portugueses» [idem], e «A Revolta» [idem].
[3] Bárbara Ornellas refere este aspecto, exemplificando com o quadro «Marché au Minho».
[4] Sonia, como dissémos, havia ilustrado o poema de Cendrars «Prose du transibérien et de la petite Jehanne de France». O conjunto foi exibido em São Petersburgo em 22 de Dezembro de 1913, durante uma conferência proferida por A. A. Smirnov sobre o simultaneismo.
[5] As razões desse regresso de Sonia ao nosso país não são claros. Bárbara Ornellas refere que ela voltou «para buscar a última mala», atitude incongruente com a ideia que aventa de ela ter acompanhado Robert a Vigo quando este ia àquela cidade para comparecer perante uma junta de revisão.
[6] É pelo menos esta a informação que decorre de um artigo de opinião, assinado por Abílio Maya, publicado no jornal «O Valenciano» de 1 de Janeiro de 1916.