
Há várias fitas do tempo sobre a Segunda Guerra Mundial. No «Portal da História» está mais uma, em português. Mas há mais. Muitas mais. É a guerra no dia-a-dia.
Guerra Secreta em Portugal durante a II Guerra Mundial

Como já se viu este «blog» articula-se com um outro a que chamei «Lusitânia». Não tem a ver com o navio do mesmo nome, cujo afundamento em 7 de Maio de 1915 é lendário. A ideia inicial era arquivar aí tudo o que pudesse surgir com interesse sobre o tema das informações, da espionagem, das operações especiais. Tudo o que ali se arquiva vai, tal e qual, na língua em que surgem, em citação directa. Claro que o tempo fez-me interomper o registo. Decidi-me este fim-de-semana a retomar o trabalho, talvez por ter estado a chover.
Finalmente! Entrou na tipografia o original da biografia do livro. Chamar-se-à «Nathalie Sergueiew, Uma agente dupla em Lisboa». O livro narra uma aventura, a sua jovem editora, «O Mundo em Gavetas», é outra. Se tudo correr bem, o lançamento será em meados de Maio. A nossa biografada foi a agente «Treasure» do XX Committee. Esteve em Lisboa em 1944. Em 1933 fizera Paris/Varsória a pé, em 1938, Paris/Líbano de bicicleta. A redacção do livro foi um percurso mais ou menos parecido, em esforço e em duração. Mas, enfim, chegámos.

Apercebo-me de que o meu livro «O Espião Alemão em Goa» vem referido num estudo publicado no «site» da Casa de Goa, da autoria de Amchea Ganvcheô Iadi. Infelizmente o link para a primeira parte não abre, pelo que apenas está acessível a ligação para a segunda parte do artigo. Os nossos agradecimentos pela referência. 


O Tratado de Versalhes de 1918, que pôs termo à Primeira Grande Guerra, proibiu o rearmamento alemão. Em 1939 a Alemanha invadia o Mundo. Como foi possível organizar esse Exército? Treinando-o secretamente na União Soviética. É nesse contexto que se passará o capítulo de um livro que, atrasado, estou a acabar. Tudo explica que no dia 23 de Agosto de 1939, Vyacheslav Molotov, Comisário do Povo para os Negócios Estrangeiros da comunista URSS assine com Joachim von Ribbentrop, o Ministro dos Negócios Estrangeiros da nazi Alemanha, o Pacto Germano Soviético de Não Agressão. É o momento que os pseudo-historiadores maniquístas, para quem só há o branco e o preto, fingem ignorar. Mas a foto aí está. Por detrás de todos. Stalin observa, sorridente. Pendurado já na parede, em retrato, Lénine, simboliza aquilo que tudo sempre foi: ou não foram os alemães que financiaram a revolução bolchevique que levou os sovietes ao poder, criando aquilo que Stefan Zweig chamou de o novo czarismo. Ou não foi ele quem, em 1917, quando a Alemanha abriu as hostilidades com a Primeira-Guerra Mundial, conduziu à assinatura do Tratado de Brest-Litovsk, o da vergonhosa paz separada?


A pintora ucraniana Sonia Delaunay viveu em Portugal com o marido Robert, em Vila do Conde. A casa, a «Vila Simultânea», ainda lá está, praticamente na mesma, na antiga Rua dos Banhos. Com eles conviveu o pintor Eduardo Vianna. Duas vezes ali foram visitados por Amadeo de Souza-Cardoso, o eremita de Manhufe. De Lisboa, José de Almada-Negreiros venerava-a, escrevendo-lhe exaltadamente. Em Abril de 1916, durava a Primeira Guerra, quando se deslocou ao Porto, Sonia foi detida pela polícia, bem como Vianna, ambos acusados de espionagem. O caso, logo escandaloso, viria a esclarecer-se, mas não as razões da prisão. Na origem da mesma aparentemente teria estado uma denúncia anónima de um empregado do Consulado de França. Ao ler o livro de Sarah Afonso, viúva de Almada, sobre as suas conversas com a neta surgiu-me a pista de que o autor do Manifesto Anti-Dantas poderia ter estado na origem do equívoco, ao ter telegrafado equivocamente em busca do manuscrito K4 Quadrado Azul. Uma coisa é certa: naquele ambiente de espionite aguda, os círculos concêntricos de côr que ela expunha, em frente ao mar, pareciam mensagens secretas a submarinos. Estou há várias semanas a escrever um livro por causa disto. Tenciono acabar antes o da Nathalie Sergueiew, cujo atraso já a mim me irrita, tanto quanto ter desleixado este blog. Os Delaunay ficaram conhecidos pelo simultanismo, movimento a que deram nome. Não é esse, mas é o simultaneismo, o factor da mesma impossibilidade de andar a tempo.
Os National Archives de Inglaterra informam da disponibilidade on line de informações sucintas, mas interessantes, sobre a vida de alguns estadistas influentes durante a 2ª GG. O material, cognominado «Heroes and Villains», pode ser encontrado aqui.
A propósito dos homenageados do Tarrafal fica aqui uma menção a um deles, autor de um livro que relata os horrores do campo de internamento onde esteve em 1942: Cândido de Oliveira, que muitos conhecem como o fundador do jornal «A Bola», poucos como quem escreveu o livro «O Pântano da Morte», ainda menos como alguém que foi agente secreto em favor da causa aliada, agente do SOE, o serviço britânico de guerra clandestina.
Ao dar uma vista de olhos pelo site do Camp-X do Canadá verifiquei que nele se publica um post pelo qual se sugere que o nome de James Bond pode ter tido origem naquele Campo, quando da visita do seu criador, Ian Lancaster Fleming.
Ainda Liddell, ainda Menezes. Este domingo conferi as menções feitas no índice analítico dos diários de Guy Liddell a Rogério Magalhães Peixoto de Menezes e comparei-as com aquelas outras que eu tinha encontrado em Inglaterra nos Arquivos Nacionais [cota KV4/190], quando li aqueles diários na sua forma original, naqueles dossiers de argolas com aparência escolar, contendo as notas que ele todos os dias ditava, para serem dactilografas, à sua secretária sobre o que se passava nos serviços de contra-espionagem MI5, de que foi director durante a segunda guerra. O trabalho, minucioso, valeu a pena. Havia mais referências nos documentos originais do que o índice analítico elaborado por «Nigel West» assinala. Descobri, por exemplo, que Liddell anotara que os ingleses tinham um agente seu infiltrado na Embaixada portuguesa em Londres, que vigiava de perto o nosso biografado. E mais interessante ainda foi saber que Menezes, que a dactilógrafa, escrevendo foneticamente, grafa como «Manezes», era «a Portuguese ISOS character», o que quer dizer que ele havia sido, afinal, descoberto, antes de chegar a Inglaterra, através do sistema de escuta das rádio comunicações alemãs e sua descodificação em Bletchley Park. ISOS era, na verdade, um nome de código apto a designar «Intelligence Service Oliver Strachey», o nome do oficial britânico encarregado do tratamento das cifras alemãs manuais. Quando chegou a Londres, tinha o MI5 à espera.
Há momentos em que as peças do jogo se ligam. Quando ainda não havia internet, muitos dos livros que eu comprei para estes meus trabalhos eram encontrados por uma simpática inglesa, chamada Caroline Hartley, que sempre imaginei uma pacata avózinha, que residia no interior de Inglaterra e cujos rendimentos eram conseguidos à conta deste engenhoso sistema: eu e outros como eu, enviávamos-lhe um fax com a lista dos livros que procurávamos, ela descobria-os, e quando os comprava receberia alguma comissão do vendedor. Muitas das preciosidades que hoje ornam a minha biblioteca foram assim achadas. Assim sucedeu com as memórias do Walter Schellenberg. Encontrei hoje dentro desse livro a tarjeta que ela distribuía com os seus contactos, o telefone e o fax. O símbolo era lindíssimo, um gato, felinamente curioso em cima de uma pilha de livros. Há muito tempo que não sabia dela, hoje é tudo através do ciber-espaço. Agora reencontrei-a e descobri que devemos ter uma idade aproximada. Também ela se converteu à internet, o gato, afinal, existe e é um miau real, a miar aqui.
Há dois anos consegui lê-los, no então chamado «Public Record Office», actualmente «National Archives», em Kew Gardens, perto de Londres: os diários de Guy Liddlell, que entre Agosto de 1939 e Junho de 1945 foi director da contra-espionagem no MI5. Apercebi-me da sua importância e tirei notas para um livro que estou a finalizar, a biografia da agente dupla Nathalie Sergueiew, do XX Committee. Agora, tais diários acabam de surgir, em dois volumes, sob a chancela editorial de «Nigel West», nome literário de Rupert Allason, especialista em história dos serviços secretos. Iniciei ontem a leitura, para logo descobrir as menções que ali se fazem a um caso sobre o qual escrevi já um livro, o de Rogério de Menezes. Menezes era um agente ao serviço do Eixo, recrutado em Lisboa, não pela Abwehr, como era normal suceder, mas sim pelo Sicherheitdienst. A partir da Embaixada Portuguesa em Londres enviava cartas, escritas em tinta invisível, para os seus contactos em Lisboa, «Francisco Mendes» e «Manuel Castro», com informação com interesse militar, mas que, na realidade se veio a revelar de muito escasso valor. A leitura dos diários, permitiu-me enriquecer o meu conhecimento do caso em alguns aspectos relevantes. Primeiro, que foi John Bingham, da secção de Max Knight, quem esteve em contacto com Menezes, vigiando-o e apercebendo-se que, como espião, o seu trabalho era fraco, pois as mulheres pareciam ser a sua principal preocupação. Bingham era o pai da conhecida escritora Charllote Bingham, autora de um livro, publicado em 1963, quando tinha apenas dezanove anos de idade, sobre a vida da juventude britânica no final dos anos cinquenta, que em inglês se chamou «Coronet among the weeds» e em português, «Eu ele eles». Segundo, que a tentativa de o inutilizarem passou em primeira linha, pela eventualidade de mobilizarem a ajuda do Embaixador português em Londres, o anglófilo Armindo Monteiro, pai do escritor Luís de Sttau Monteiro, colocando-o ante o problema e esperando que ele o privasse, como acabaria por fazê-lo, da imunidade diplomática. Terceiro, que a questão ganhou relevo e chegou a ser discutida por Liddell com Dick Brooman-White e Sir Alexander Cadogan, sub-secretário permanente dos Negócios Estrangeiros. Quarto, que a recusa dessa via de solução diplomática, assentou no facto de o MI5 ter concluído que, para isso, seria necessário obter uma cópia de uma das cartas escritas em tinta invisível, o que levantaria suspeitas aos portugueses quanto ao facto de a mala diplomática nacional estar a ser violada pelos serviços secretos da nossa mais velha aliada. Quinto, que a carta em causa foi encontrada [«produced»] pelo «Triplex», o serviço clandestino de acesso à mala diplomática dos países neutrais. Sexto, que Londres foi sensível à circunstância de, ante a pressão gerada em torno da localização de Menezes, as autoridades de Lisboa terem procedidos à prisão de vinte e três agentes alemães entre os quais o próprio chefe local da Sicherheitdienst e assim a vida do homem das cartas de Londres foi poupada.


Em 2 de Outubro de 2004 completaram-se cem anos sobre o nascimento de Graham Greene. O autor de «O nosso homem em Havana» foi escritor sobre temas de espionagem e entre Julho de 1941 e Maio de 1944 foi agente do MI6, na área da contra-espionagem. Portugal seria também o seu alvo. Estávamos em plena segunda guerra mundial. Para comemorar o acontecimento proferi uma conferência em Sintra, na Casa-Museu Ferreira de Castro, no dia da efeméride. De tal conferência, ainda inédita, publiquei um resumo na revista «Visão». Eis o texto do respectivo artigo.