24LAND

O conteúdo do presente blog foi hoje [17.02.2018] incorporado no blog 24Land [ver aqui] que mantenho sob o mesmo tema, escrito em língua inglesa. O objectivo é centralizar informação e tentar que ela tenha maior alcance.


2ª GG: a fita do tempo


Há várias fitas do tempo sobre a Segunda Guerra Mundial. No «Portal da História» está mais uma, em português. Mas há mais. Muitas mais. É a guerra no dia-a-dia.

A retoma do «Lusitânia»

Como já se viu este «blog» articula-se com um outro a que chamei «Lusitânia». Não tem a ver com o navio do mesmo nome, cujo afundamento em 7 de Maio de 1915 é lendário. A ideia inicial era arquivar aí tudo o que pudesse surgir com interesse sobre o tema das informações, da espionagem, das operações especiais. Tudo o que ali se arquiva vai, tal e qual, na língua em que surgem, em citação directa. Claro que o tempo fez-me interomper o registo. Decidi-me este fim-de-semana a retomar o trabalho, talvez por ter estado a chover.

A agente «Treasure» finalmente em acção

Finalmente! Entrou na tipografia o original da biografia do livro. Chamar-se-à «Nathalie Sergueiew, Uma agente dupla em Lisboa». O livro narra uma aventura, a sua jovem editora, «O Mundo em Gavetas», é outra. Se tudo correr bem, o lançamento será em meados de Maio. A nossa biografada foi a agente «Treasure» do XX Committee. Esteve em Lisboa em 1944. Em 1933 fizera Paris/Varsória a pé, em 1938, Paris/Líbano de bicicleta. A redacção do livro foi um percurso mais ou menos parecido, em esforço e em duração. Mas, enfim, chegámos.

«Glasnot» à americana


Já aqui o tínhamos referido. Documentos que até aqui estavam acessíveis ao público nos Arquivos Nacionais em Washington estão a ser retirados da leitura, no quadro de um memorando secreto cuja implementação data já do tempo da Administração Clinton. 55 000 páginas já foram reclassficadas, muitas referentes ao tempo da Segunda Guerra. O site do «National Security Archive» dá pormenores e publica um fac-simile do memorando, que o próprio site dos NARA também havia editado.OS investigadores que se apressem: a política americana do «glasnot» já conheceu melhores dias.

O agente «Tomé» em Moçambique


Finalmente sabe-se mais sobre Manoel Mesquita dos Santos. De acordo com intercepções ISOS efectuadas às comunicações alemãs, fora descoberto que este jornalista, português, residente no Brasil, havia sido recrutado pela Abwehr, o serviço alemão de informações militares, dirigido pelo almrante Wilhelm Canaris. Fluente em quatro línguas, a sua missão seria infiltrar-se na África do Sul e em Moçambique, para obter informação. Foi, no entanto, capturado em Freetown, onde operou Graham Greene, e transferido para Londres. Interrogado no Campo 020, ficaria detido até ao termo da 2ª Guerra. O seu dossier, aberto em 01.01.42, quando se iniciou a sua vigilância, acaba de ser liberto da lei do segredo. De acordo com o que era até agora conhecido, a sua motivação foi essencialmente pecuniária, pois tinha mulher e dois filhos para sustentar. Recebeu formação no manuseio de tinta invisível no Rio de Janeiro. Já recrutado, embarcou de Lisboa para Lourenço Marques em Abril de 1942. Teria enão trinta e cinco anos. Financiado pelos alemães percorreu grande parte da colónia, contactado as autoridades portuguesas. Ao regressar, foi detido. Internado, foi condenado à pena de morte, mas veria a sua sanção comutada e permanecendo sob prisão. O livro, editado pelo PRO [antecessor dos National Archives] britânico, respeitante ao «Camp 020», onde também foi interrogado Rogério de Menezes, refere já detalhadamente o seu caso. Referências ao contactos do agente romeno pró-nazi Adalberto Wamszer em Moçambique com Mesquita dos Santos, constam já do estudo de Stanley Hilton «Hitler's Secret War in South America» (1939-1945), publicado em 1999 pela University of Louisiana Press, em Baton Rouge. A partir de agora, o estudo das redes do Eixo em Moçambique, controladas do lado alemão por Leopold Werz e na vertente italiana por Umberto Campini pode conhecer inesperados desenvolvimentos. A análise que já efectuámos sobre a actuação do escritor Malcolm Muggeridge, o agente do Mi6 em Lourenço Marques terá que ser retomada. Sir Mug, partiria para a capital laurentina um mês depois do agente «Tomé». Instalar-se-ia no Hotel Polana. Tudo isso é uma outra história, à qual voltaremos aqui, um destes dias, ou numa destas noites.

O Espião alemão na Casa de Goa

Apercebo-me de que o meu livro «O Espião Alemão em Goa» vem referido num estudo publicado no «site» da Casa de Goa, da autoria de Amchea Ganvcheô Iadi. Infelizmente o link para a primeira parte não abre, pelo que apenas está acessível a ligação para a segunda parte do artigo. Os nossos agradecimentos pela referência.

Uma bibliografia


A imagem de abertura do «College», confesso, é apetecível. Fica nos EUA. Um dos seus professores, agora jubilado, Ransom Clark, compilou uma bibliografia sobre a 2ª GG, com capítulos dedicados às informações e contra-informações. Vale a pena uma visita, vale a pena arquivar.

Henry Graham Greene, o nosso agente para Portugal


Agradeço à magnífica revista «Mealibra» o ter aceite publicar um artigo que escrevi para comemorar os cem anos do nascimento do escritor Graham Greene. Apresentei-o numa pequena palestra em Sintra, na Casa Museu de Ferreira de Castro, no próprio dia da efeméride. Tive a triste oportunidade de verificar que a nível nacional foi das pouquíssimas coisas que se fizeram para referir tal data. Greene escreveu sobre os serviços secretos, esteve ligado aos serviços secretos. Foi sobre esse seu mundo interior que procurei falar. Permitam-me que arquive aqui o texto.

Se a biografia de uma pessoa se pudesse reduzir simplesmente à sua profissão, diríamos que Henry Graham Greene foi jornalista e foi escritor e que, entre as duas coisas, esteve ligado aos serviços secretos.
Em 1926 era sub-editor do jornal «The Times», de Londres, ao qual chegara com a magra experiência adquirida no ano anterior no «Nottingham Journal».
Três anos depois editaria a sua primeira novela, «The Man Within». Tinha então vinte e cinco anos.
A atracção pela escrita apodera-se, então, dele.
Greene convence o editor Heinemann a garantir-lhe um salário como escritor profissional. Só que os seus livros seguintes são um fracasso, de tal modo que ainda hoje são títulos praticamente ignorados pelo grande público. «The Name of Action» não foi além das 2 000 cópias e «Rumour at Nightfall» ficou-se, pior ainda, pelas 1 200.
Só com «Stanboul Train», editado em 1932, alcançaria um palmarés de alguma respeitabilidade editorial, aproximando-se dos 16 000 exemplares.
O livro narra uma história vivida no Expresso do Oriente, numa viagem até Constantinopla: assassínio, intriga e espionagem misturam-se numa batalha mental que corta a respiração e cria no leitor um sentido de urgência e um tensão perturbadora.
A actividade da escrita é, na vida deste homem, o traço essencial da sua maneira de ser e de um tal modo que praticamente a pessoa e a obra se interligam. Greene escreveu apenas ficção e viveu ficcionalmente.
Quem quisesse escrever a sua biografia encontraria sempre dificuldades de monta, sobretudo no separar a verdade da ilusão.
Ele próprio o reconheceria numa frase sintomática: «se alguém alguma vez tentar escrever uma minha biografia, que complicado que o irá achar e que enganado irá ser».
É neste contexto em que é tão difícil separar a verdade da ficção que procuraremos apreender a sua ligação aos serviços secretos britânicos e, nomeadamente, a sua ligação a Portugal. Continua aqui.

Salazar e Franco: o encontro secreto

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Eram 10 da manhã do dia 10 de Fevereiro de 1942. Ao chegar à Rua da Imprensa à Estrela para iniciar mais um dia habitual de funções, nesses tempos conturbados da II Guerra, o secretário de Oliveira Salazar, constata, perplexo, a ausência do Presidente do Conselho de Ministros. Mas pior: feitos uns contactos entre os círculos que naturalmente deveriam estar a par de qualquer deslocação de Salazar, rapidamente se conclui que ninguém estava prevenido para qualquer eventual saída ou motivo para ausência.
A situação assume foros de paroxismo quando se acrescenta ao rol dos faltosos mais um nome: também o Director da PVDE, o capitão de infantaria Agostinho Lourenço se não achava no seu posto na António Maria Cardoso, nem na residência sita a Avenida Barbosa du Bocage.
Onde estariam todos? Eis a história que conto aqui.

Thomas Harris: o gestor de «Garbo»



Especulou-se sobre o desastre automóvel em que morreu. Protegeu «Kim» Philby e foi amigo de Desmond Bristow. Gerindo o agente «Arabel», criou o célebre «Garbo». Pintor, fazia da espionagem também uma arte.Falar de Tomás Harry é seguramente contar a história do agente catalão Juan Pujol Garcia, cuja carreira ele geriu. Só que o personagem é bem mais rico do que isso e resiste a muitas simplificações, não se livrando porém, como se fosse ele próprio também um objecto estético, à duplicidade das interpretações sobre a verdadeira natureza da sua vida.
Ainda hoje, anos volvidos sobre a sua morte, as suspeitas sobre a lealdade ensombram a sua lenda, havendo quem, nas ligações pessoais comprometedoras que manteve, veja um elemento de ligação à causa soviética à qual foram fiéis muitos dos seus amigos de então.
Citando Anthony Blunt, o jornalista Chapman Pincher, no seu provocante livro «Their trade is treachery», publicado em 1981, imputa-lhe ideias marxistas mas ressalva que, segundo Blunt, ele não seria um agente russo, pelo menos tanto quanto lhe tinha sido dado observar.
Mas já nas memórias que, sob o título «A Game of Moles», editou em 1993, Desmond Bristow citaria a sua própria mulher como partilhando da convicção de que tal ligação era real e demonstrada pelos factos.
Mas é na estética e na arte das sombras e da ambiguidade que se revêm os traços essenciais da sua personalidade multiforme, que Philby consideraria ser a de um espírito intuitivo brilhante. Continua aqui.

Quando a URSS rearmou o III Reich

O Tratado de Versalhes de 1918, que pôs termo à Primeira Grande Guerra, proibiu o rearmamento alemão. Em 1939 a Alemanha invadia o Mundo. Como foi possível organizar esse Exército? Treinando-o secretamente na União Soviética. É nesse contexto que se passará o capítulo de um livro que, atrasado, estou a acabar. Tudo explica que no dia 23 de Agosto de 1939, Vyacheslav Molotov, Comisário do Povo para os Negócios Estrangeiros da comunista URSS assine com Joachim von Ribbentrop, o Ministro dos Negócios Estrangeiros da nazi Alemanha, o Pacto Germano Soviético de Não Agressão. É o momento que os pseudo-historiadores maniquístas, para quem só há o branco e o preto, fingem ignorar. Mas a foto aí está. Por detrás de todos. Stalin observa, sorridente. Pendurado já na parede, em retrato, Lénine, simboliza aquilo que tudo sempre foi: ou não foram os alemães que financiaram a revolução bolchevique que levou os sovietes ao poder, criando aquilo que Stefan Zweig chamou de o novo czarismo. Ou não foi ele quem, em 1917, quando a Alemanha abriu as hostilidades com a Primeira-Guerra Mundial, conduziu à assinatura do Tratado de Brest-Litovsk, o da vergonhosa paz separada?

A Minox


Quando em 1938 o engenheiro letão Walter Zapp inventou a mini câmara de fotografar Minox estava longe de supor que ia criar um artefacto fundamental para o mundo da espionagem. O seu objectivo era então criar apenas um aparelho comercial que, pela sua pequenez e leveza, pudesse ser transportado para todo o lado, facilitando a vida aos fotógrafos amadores. Para se compreender o avanço que significou uma tal máquina é necessário ter uma ideia do que eram em tamanho e modo de funcionamento as máquinas fotográficas de então. Era o tempo do chamado «caixote», grande no tamanho e na complicação. Tecnicamente o problema de Zapp e da sua equipe era então o resolver alguns problemas mecânicos e outros ópticos para fabricar assim a mais pequena câmara do mundo. Primeiro, urgia conseguir a miniaturização do filme, a um quarto do tamanho do clássico 35 milímetros usado em fotografia. Reduzida em dimensão a película era, além disso, alimentada na máquina através de um conjunto de dois carretos fechados, um deles para receber a película já exposta, evitando assim as complicações da introdução e da extracção do rolo e os erros de colocação do mesmo. Depois, importava maximizar a óptima focagem com a melhor nitidez, tudo a partir de lentes de mínimas dimensões. Leve, nítida, fácil e produtiva a Minox superava a sua época. Conseguido este invulgar artefacto, cedo a espionagem se interessou por tal aparelho. Ele permitir-lhe-ia resolver um dos mais sérios problemas que então tinham de enfrentar: o copiar documentos secretos que não poderiam ser directamente subtraídos dos arquivos. Continua aqui.

Caixilhos, placards e areia nos sapatos



Foi num destes últimos fins de semana. Consegui, nem sei à custa de que milagre dar uma escapadela a Londres. No próprio dia da chegada, uma sexta-feira à tarde, fria e chuviscosa, eis, uma vez mais, o Imperial War Museum. Alberga agora uma exposição sobre o Lawrence da Arábia, aquele cujo filme com Peter O'Toole no principal papel, faz sair de lá, ao fim de 216 minutos, com os sapatos cheios de areia. Mas o nosso objectivo era outro. Quem nos visse a mirar como se penduram os «placards» na parede pensar-nos-ia tolinhos. Esperem para ver. O propósito da viagem era ir rever a exposição permanente sobre a guerra secreta e dela, mais propriamente, os caixilhos, as luzes e os placards!. Para quê, é segredo, parte de uma guerra secreta! Quem quiser mais sobre o Lawrence, tente aqui. Quanto ao resto, é só aguardar.

FOIA em regressão


Há neste momento uma polémica nos EUA a propósito da reclassificação de documentos que estavam libertos do sigilo, através do «Freedom of Information Act» [FOIA] e por isso disponíveis para a consulta pública nos National Archives. A propósito disso, alguém escreveu, num forum do OSS o seguinte trecho: «The CIA took 7 years to declassify a one page OSS report on "German artificial blood substitutes" written in 1945». Elucidativo e preocupante para o trabalho dos investigadores.

Germanofilia da aristocracia britânica


Chamam-se National Archives, antes era o Public Record Office. Ficam em Kew Gardens, do outro lado da pequena estação de caminho de ferro que nos leva de Londres ao belíssimos jardins com o mesmo nome. Periodicamente libertam da lei do segredo documentos até aí classificados. Soube hoje, domingo de manhã, que vai sair mais uma leva, desta feita sobre a investigação feita pelo MI5 às simpatias nazis da aristocracia britânica. A notícia vem num jornal escocês, mas a restante imprensa deve fazer-se eco disso. O site dos arquivos britânicos é que ainda não referia nada. O tema é candente. Quem viu o filme «Os despojos do dia», com Anthony Hopkins, sabe que ele é disso que trata. A história inicial está escrita num livro de Kazuo Ishiguro, traduzido em português. Num artigo que pubiquei há anos em Cascais e que talvez dê um livro e de que, entretanto, colocarei aqui um resumo, a propósito da passagem do Duque de Windsor pela casa do banqueiro Ricardo Espírito Santo na Boca do Inferno, referi o assunto da germanofilia da nobreza britânica.Claro que a mãe do duque, Victoria Mary de Teck, era de origem alemã, o que talvez explique muita coisa. Mas isso é para mais tarde, havendo vagar.

O Rei Carol, Nosso Senhor



O destronado Rei Carol da Roménia surge inopinadamente em Portugal em Março de 1941, substituído pelo marechal Antonescu, o seu país retalhado entre o III Reich e a URSS. O mistério que rodeou esta sua aparição ainda hoje permanece. Uma coisa embaraçou, porém, Oliveira Salazar: é que ele seria por direito próprio, Rei de Portugal. Uma história secreta que ainda está por contar.

Parte da História é conhecida. Em 1940 o Rei Carol da Roménia foi destronado pelo Marechal Antonescu e o seu país aderiu à causa nazi.
Escapando-se para Espanha, por onde parecia ficar, Carol surge entretanto em Portugal. Era algo que não agradava aos alemães, para quem a sua vinda para Lisboa tinha o perigo de poder ser preparatória de uma fuga para Inglaterra, onde o rei poderia ser usado como veículo de propaganda. Além do mais na Espanha franquista, estava mais à mão.
No ambiente de intrigas característico daquela época, fervilhavam as teses mais conspirativas. Uma era precisamente a de que Carol teria sido raptado pelos serviços da PVDE, a polícia secreta dirigida pelo Capitão Agostinho Lourenço.
A situação era de todo em todo confusa porque, uns largos meses antes o monarca havia negociado secretamente com as autoridades um plano de vinda para Portugal, plano esse que só poderia ser rejeitado, porque valores mais altos se levantavam.
Na verdade, tudo começara, secretamente uns meses atrás. Leia o resto aqui.

Reactivando um morto!

Este «blog» nasceu para nele ficarem notícias sobre as investigações que há mais de quinze anos venho fazendo sobre as redes estrangeiras de espionagem em Portugal durante a Segunda Guerra e que já deu azo a três livros. Depois surgiu a ideia de que ele funcionasse como arquivo do que fosse surgindo como informação relevante para o meu trabalho. A verdade é que ele acabou por ser nem uma coisa nem outra. Ficou parado, com um asteróide petrificado no vazio do espaço. Neste dia de chuva, decidi-me. Vou reactivá-lo: com o que fiz, com o que farei e com aquilo que posso fazer. Veremos. Aliás tenho um livro em fase final, com um mês de atraso e outro na forja. E tenho mais novidades, se me permitem a vaidade, que a seu tempo virão ao de cima. Vamos pois reagir!

Sonia Delaunay: espionagem simultânea

A pintora ucraniana Sonia Delaunay viveu em Portugal com o marido Robert, em Vila do Conde. A casa, a «Vila Simultânea», ainda lá está, praticamente na mesma, na antiga Rua dos Banhos. Com eles conviveu o pintor Eduardo Vianna. Duas vezes ali foram visitados por Amadeo de Souza-Cardoso, o eremita de Manhufe. De Lisboa, José de Almada-Negreiros venerava-a, escrevendo-lhe exaltadamente. Em Abril de 1916, durava a Primeira Guerra, quando se deslocou ao Porto, Sonia foi detida pela polícia, bem como Vianna, ambos acusados de espionagem. O caso, logo escandaloso, viria a esclarecer-se, mas não as razões da prisão. Na origem da mesma aparentemente teria estado uma denúncia anónima de um empregado do Consulado de França. Ao ler o livro de Sarah Afonso, viúva de Almada, sobre as suas conversas com a neta surgiu-me a pista de que o autor do Manifesto Anti-Dantas poderia ter estado na origem do equívoco, ao ter telegrafado equivocamente em busca do manuscrito K4 Quadrado Azul. Uma coisa é certa: naquele ambiente de espionite aguda, os círculos concêntricos de côr que ela expunha, em frente ao mar, pareciam mensagens secretas a submarinos. Estou há várias semanas a escrever um livro por causa disto. Tenciono acabar antes o da Nathalie Sergueiew, cujo atraso já a mim me irrita, tanto quanto ter desleixado este blog. Os Delaunay ficaram conhecidos pelo simultanismo, movimento a que deram nome. Não é esse, mas é o simultaneismo, o factor da mesma impossibilidade de andar a tempo.

Otto Strasser em Lisboa


Otto Strasser, fundador do Partido nazi alemão, do qual seria expulso em conflito aberto com Adolph Hitler, esteve em passagem por Lisboa, com a Gestapo de Walter Schellenberg no encalço. Corria o ano de 1941.

A vida política de Otto Strasser é a da passagem do partido socialista nacionalista alemão a nacional socialista, de partido dos trabalhadores alemães a partido do povo germânico. Nasceu em 10 de Setembro de 1897 em Windsheim. Formado em Direito fez a sua carreira pelas hostes da social democracia. Mas em 1925 filia-se no NSDAP, o partido nacional socialista dos trabalhadores alemães. A sua formação política leva-o a construir dentro do partido o que seria conhecido como a «ala radical». O seu campo de acção fundamental é o norte do país. Os seus companheiros de missão, o irmão mais velho Gregor e Joseph Goebbels, um universitário católico especialista em Goethe, convertido em chefe de orquestra da propaganda do III Reich. Todas as sua ideias se aproximam dos socialistas. Apoia as greves operárias, favorece uma aliança com os «bolcheviks» soviéticos, e a formação de acordos políticos com as forças de libertação dos países a oriente da URSS. Centrado no «programa de vinte e cinco pontos» que constituiu a base ideológica do nazismo inicial, Strasser é favorável à nacionalização da indústria e dos grandes bancos, desenvolvendo, em suma, uma lógica anti capitalista que o vai progressivamente isolando das cúpulas do partido. Por vocação cabe-lhe o controlo dos veículos de propaganda. Edita o jornal dos trabalhadores de Berlim («Berliner Arbeiterzeitung»), as «Cartas nacional socialistas», bem como a editora militante «Kampfverlag». A ruptura entre Strasser e o partido dá-se em 1930. O anti-semitismo, neles comum, não chega para os irmanar. Nos dias 21 e 22 do mês de Maio assiste-se a um confronto ideológico patente entre Adolph Hitler, um sargento austríaco cujo fanatismo messiânico o alcandorara à posição de chefia máxima do partido e mais tarde da nação e Strasser. O pretexto fora precisamente a questão da posição a sustentar quanto à oposição socialismo/capitalismo. A linha de orientação oficial do partido recusa o seguidismo em relação à segunda alternativa, tentando, pragmaticamente, constituir-se como um terceiro caminho autónomo. Emparedado, Otto recusa-se a aderir e é expulso das fileiras partidárias durante o mês de Julho desse ano. Homiziado, ensaia a formação de um ramo autónomo, a «Frente Negra», denominada como a «União dos Nacional Socialistas Revolucionários», mas as adesões não correspondem. Exilado em Praga, com uma corte de seguidores, lança as bases do jornal «Die Deutsche Revolution» (A Revolução Alemã). A sua permanência pelo estrangeiro mantê-lo-ia pela Suiça e pelo Canadá. Parte da sua actividade de oposição seria plumitiva, tendo dado à estampa inúmeros livros, alguns de cunho biográfico. Faleceria em 27 de Agosto de 1974, em Munique.
No entretanto, deu-se a sua passagem por Lisboa. Corria o ano de 1941.
Em Abril, Walter Schellenberg é mandado chamar à presença de Adolph Hitler. Na reunião, estritamente secreta, estão Reinhard Heydrich e Heinrich Himmler.A missão é localizar e neutralizar Otto Strasser, o qual, segundo informações seguras de infiltrados na «Frente Negra» estaria em Portugal há cerca de uma semana. O Führer está apoplético. Considera os irmãos Strasser como traidores capitais. De ambos, Otto, em princípio de menor importância, revestia agora fundamental relevo, dadas as suas actividades provocatórias de propaganda. A solução final passava, pois, pelo seu extermínio. Demasiado importante, a tarefa assinalada secretamente a Schellenberg corria, porém, o risco de se transformar numa missão impossível. Na verdade, três meses antes, os serviços de informação da Legião Portuguesa haviam assinalado, numa sua informação datada de 30.01.41 (processo nº 1566/15-B5, ANTT/LP- caixa 1418) que «o alemão Otto Strasser esteve em Portugal, de onde embarcou há cerca de dois meses e meio. A amante ficou, tendo embarcado recentemente». Tudo se conjugava assim para que o pássaro tivesse levantado voo. Mas na Chancelaria nazi o trio Heydrich, Himmler e Schellenberg ignoravam a ocorrência. Schellenberg é então instruído com o método que iria ser utilizado para a liquidação física de Otto Strasser, no caso um soro bacteriológico que posto em contacto com a vítima levaria à sua morte com sintomas semelhantes aos de uma febre tifóide. Munido com tal arma letal, faz a viagem a Portugal, via Barcelona, desembarcando no aeroporto de Sintra, na Granja do Marquês. Chegado a Lisboa, através das boas ligações que mantém com a PVDE, nomeadamente com José Catela, e através de um seu agente japonês, monta uma vastíssima rede de vigilância na mira de encontrar o seu perseguido. São então postas a correr informações, imputadas a «fontes espanholas», segundo as quais Otto Strasser, que residiria anteriormente em Espanha, haveria passado a fronteira de Vilar Formoso em 7 de Agosto de 1940, encontrando-se agora em Portugal.
Alegadamente viveria agora no nosso país com falsos nomes (Dr. Baumann, Dr. Berger, Dr. Weber, Dr. Voigt) e exibiria passaporte checo em nome de Dr. Baumann, sueco em nome de Otto Brostron (desde Dezembro de 1939) e alemão em nome de Loerbrocks. A descrição física da sua pessoa é difundida, paralelamente com a sua fotografia: «1,74 de estatura, tipo pouco esbelto, cara cheia, afeitado, cabelo escasso e ruivo, olhos cinzentos azulados, andar vivo». A sua ligação ao nosso país radicaria acessoriamente no facto de o seu irmão Paul Strasser, residir aqui no Mosteiro dos Beneditinos em Singeverva, perto de Santo Tirso.
Catorze dias durou a caçada da Gestapo local. Ao fim da missão, Walter Schellenberg conclui que tudo redundaria numa estadia turística pelo país soalheiro onde se multiplicavam os seus amigos. O sucesso era nulo.
Strasser tinha partido e antes dele o irmão para preparar terreno para a sua saída. Regressa por isso a Berlim e lança ao rio Tejo a mala de aço onde confinara o poderoso veneno capaz de liquidar o seu adversário.
Oxalá, para bem da saúde dos portugueses de hoje, o aço da Krupp saiba resistir. De outro modo, uma vaga de tifo espalhar-se-à por aí…

National Archives: heróis e vilões

Os National Archives de Inglaterra informam da disponibilidade on line de informações sucintas, mas interessantes, sobre a vida de alguns estadistas influentes durante a 2ª GG. O material, cognominado «Heroes and Villains», pode ser encontrado aqui.

Cândido de Oliveira: o agente «Pax» no Tarrafal

A propósito dos homenageados do Tarrafal fica aqui uma menção a um deles, autor de um livro que relata os horrores do campo de internamento onde esteve em 1942: Cândido de Oliveira, que muitos conhecem como o fundador do jornal «A Bola», poucos como quem escreveu o livro «O Pântano da Morte», ainda menos como alguém que foi agente secreto em favor da causa aliada, agente do SOE, o serviço britânico de guerra clandestina.
Nascido em 24 de Setembro de 1896, na vila alentejana de Fronteira, Cândido Fernandes Plácido de Oliveira, cedo ficou órfão de pai. Por causa disso entrou para a Casa Pia em 15 de Julho de 1905, onde foi educado e se fez atleta.
Funcionário dos Correios, Telégrafos e Telefones, alcançaria aí, pelos seus méritos carreira destacada.
No âmago desportivo, Cândido de Oliveira cedo ganhou justos palmarés como atleta, jogador, árbitro e treinador: campeão de Lisboa de luta greco-romana, capitão do grupo de honra do Sport Lisboa e Benfica, treinador do Casa Pia Atlético Clube e da Selecção Nacional, no Sporting Clube de Portugal, no Belenenses, no Futebol Clube do Porto, na Académica de Coimbra, no Flamengo do Rio de Janeiro.
Em 1928, a equipe nacional que se apresentou aos Jogos Olímpicos de Amsterdão foi por ele escolhida e orientada.
Sócio honorário da Federação Portuguesa de Futebol, fez parte do respectivo Conselho Técnico.
Foi, por várias vezes, seleccionador nacional.
No jornalismo, a sua estreia verificou-se em 1919, no diário desportivo «Vitória». Fundaria e dirigiria a revista «Football», os jornais «Gazeta Desportiva», «Os Sports» e «A Bola». Seria redactor em «O Século».
No campo teórico deixou vários livros de relevo: «Futebol, Desporto para a Juventude», «Futebol, Técnica e Táctica», «Sistema WM» e Segredos do Futebol».
Faleceria em Estocolmo, em 23 de Junho de 1958, quando fazia, com Ribeiro dos Reis a cobertura do Campeonato do Mundo para o jornal «A Bola».
Em 1990 o Presidente da República conferir-lhe-ia, a título póstumo, a Grã Cruz da Ordem de Mérito.
Anglófilo, seria desterrado, sem julgamento, para o Campo do Tarrafal em Cabo Verde. Com base nessa dolorosa experiência de dois anos escreveria «O Pântano da Morte», em que atou ao «pelourinho» o «Governo da Ditadura, Criador do Campo de Concentração do Tarrafal de Santiago de Cabo Verde». O livro seria publicado legalmente em 1974, pela Editorial «República».

O papel de mestre Cândido na rede clandestina aliada foi fundamental.
Desempenhava à data as funções de Inspector dos Correios.
Era de facto o agente «Pax», «H.204» (mais tarde «H.700») da rede do SOE.
O seu trabalho mereceria as melhores referências.
Cândido organizou uma rede de rádio-telegrafistas que, em caso de ruptura das comunicações oficiais, poderiam funcionar como um sistema alternativo e secreto na transmissão de informações. E, valendo-se do seu estatuto nos correios, permitia que a correspondência alemã fosse retardada por uma noite, o tempo necessário para ser fotografada pelos serviços de contra-espionagem dos britânicos.
Em 23 de Abril de 1941, John Beevor, o advogado que em Lisboa organizava a rede secreta destinada a deter um avanço alemão sobre o nosso país, comunicaria para Londres que «um novo amigo, Pax, tem sido muito útil e poderá arranjar um sistema definitivo de comunicações através de morse em vários centros da instituição na qual trabalha».
Só que a repressão haveria de se abater sobre a rede do SOE, sendo Cândido localizado após a prisão pela PVDE de Maximiano Varges.
Cândido de Oliveira pagaria assim com o Tarrafal. Para ali seria transferido em 20 de Junho de 1942. Regressado, dois anos depois, em 1 de Janeiro de 1944, mas só alcançaria a liberdade em 27 de Maio desse ano.
Havia sido demitido do seu lugar nos CTT.
Refazendo a vida, fundaria o jornal «A Bola», o jornal de todos os desportos», com o tenente coronel Ribeiro dos Reis. O número 1 sairia em 29 de Janeiro de 1945. Custava um escudo.
Sobre a sua vida pubiquei um artigo na revista do jornal que fundou, há uns anos. Homero Serpa viria a editar um livro biográfico sobre a sua pessoa. Até aí muitos pensavam que o degredo no Tarrafal tinha a ver com o facto de Cândido de Oliveira ser anti-fascista, que o era, quase ninguém sabia o que se passava quanto à ligação à causa aliada. Tenho comigo todos os documentos, na mira de um livro que talvez um dia tenha tempo para escrever.

007 no Canadá

Ao dar uma vista de olhos pelo site do Camp-X do Canadá verifiquei que nele se publica um post pelo qual se sugere que o nome de James Bond pode ter tido origem naquele Campo, quando da visita do seu criador, Ian Lancaster Fleming.
Segundo esta versão, quando Fleming que então trabalhava nos serviços de informações da Marinha, foi convidado por William Stephenson [mais conhecido como «Intrepid»], para observar e participar no Syllabus, a acção de treino na guerra subversiva levada a cabo pelos homens do SOE em STS 103 (Campo X), ao deslocar-se todos os dias do local da sua hospedagem para o dito campo, confortavelmente conduzido por um chauffeur posto à sua disposição, topava com um visível painel a anunciar a «Saint James Bond United Church».
Talvez seja assim. Mas se o for, esta tese deita por terra uma outra segundo a qual Fleming inspirou-se no nome quando, já retirado dos serviços secretos e residente na Jamaica, na sua mansão «Golden Eye», ali encontrou um livro do conhecido ornitólogo americano James Bond, chamado «Birds of West Indies».

Camp X, Canadá


Locais de culto, os museus são sempre centros de peregrinação pelos estudiosos e pelos leigos.
Abriu o site do Museu do Campo X, sito em Ontário, no Canadá e que pode ser encontrado aqui. Conhecido não oficialmente como Campo X, esta instalação paramilitar de treino foi conhecido oficialmente por vários nomes: como S25-1-1 pela RCMP, como o Projeto-J pelas forças armadas canadianas, e como STS-103 (escola de treino especial 103) pelo SOE britânico. Estabeleceu-se em 6 de Dezembro de 1941, em Whitby, Ontário, Canadá resultando dos esforços de cooperação da Coordenação Britânica da Segurança (BSC) e do governo de Canadá. O chefe do BSC foi Sir William Stephenson. Teve um papel notável na luta contra as forças do Eixo nazi-fascista.

«Manezes», um personagem ISOS

Ainda Liddell, ainda Menezes. Este domingo conferi as menções feitas no índice analítico dos diários de Guy Liddell a Rogério Magalhães Peixoto de Menezes e comparei-as com aquelas outras que eu tinha encontrado em Inglaterra nos Arquivos Nacionais [cota KV4/190], quando li aqueles diários na sua forma original, naqueles dossiers de argolas com aparência escolar, contendo as notas que ele todos os dias ditava, para serem dactilografas, à sua secretária sobre o que se passava nos serviços de contra-espionagem MI5, de que foi director durante a segunda guerra. O trabalho, minucioso, valeu a pena. Havia mais referências nos documentos originais do que o índice analítico elaborado por «Nigel West» assinala. Descobri, por exemplo, que Liddell anotara que os ingleses tinham um agente seu infiltrado na Embaixada portuguesa em Londres, que vigiava de perto o nosso biografado. E mais interessante ainda foi saber que Menezes, que a dactilógrafa, escrevendo foneticamente, grafa como «Manezes», era «a Portuguese ISOS character», o que quer dizer que ele havia sido, afinal, descoberto, antes de chegar a Inglaterra, através do sistema de escuta das rádio comunicações alemãs e sua descodificação em Bletchley Park. ISOS era, na verdade, um nome de código apto a designar «Intelligence Service Oliver Strachey», o nome do oficial britânico encarregado do tratamento das cifras alemãs manuais. Quando chegou a Londres, tinha o MI5 à espera.

Livros e conferências, oferecem-se

Há momentos em que as peças do jogo se ligam. Quando ainda não havia internet, muitos dos livros que eu comprei para estes meus trabalhos eram encontrados por uma simpática inglesa, chamada Caroline Hartley, que sempre imaginei uma pacata avózinha, que residia no interior de Inglaterra e cujos rendimentos eram conseguidos à conta deste engenhoso sistema: eu e outros como eu, enviávamos-lhe um fax com a lista dos livros que procurávamos, ela descobria-os, e quando os comprava receberia alguma comissão do vendedor. Muitas das preciosidades que hoje ornam a minha biblioteca foram assim achadas. Assim sucedeu com as memórias do Walter Schellenberg. Encontrei hoje dentro desse livro a tarjeta que ela distribuía com os seus contactos, o telefone e o fax. O símbolo era lindíssimo, um gato, felinamente curioso em cima de uma pilha de livros. Há muito tempo que não sabia dela, hoje é tudo através do ciber-espaço. Agora reencontrei-a e descobri que devemos ter uma idade aproximada. Também ela se converteu à internet, o gato, afinal, existe e é um miau real, a miar aqui.
Foi também através do ciber-espaço que ontem o encontrei: chama-se Mark Baldwin, é doutorado, vende livros sobre os serviços secretos na segunda guerra mundial e, além disso, oferece-se para fazer conferências sobre criptografia na segunda guerra. O seu site recebe o nome da máquina de codificação alemã, antecessora da Geheimschreiber: www.Enigmatix-uk.com.

Os diários de Guy Liddell e o livro de Rogério de Menezes

Há dois anos consegui lê-los, no então chamado «Public Record Office», actualmente «National Archives», em Kew Gardens, perto de Londres: os diários de Guy Liddlell, que entre Agosto de 1939 e Junho de 1945 foi director da contra-espionagem no MI5. Apercebi-me da sua importância e tirei notas para um livro que estou a finalizar, a biografia da agente dupla Nathalie Sergueiew, do XX Committee. Agora, tais diários acabam de surgir, em dois volumes, sob a chancela editorial de «Nigel West», nome literário de Rupert Allason, especialista em história dos serviços secretos. Iniciei ontem a leitura, para logo descobrir as menções que ali se fazem a um caso sobre o qual escrevi já um livro, o de Rogério de Menezes. Menezes era um agente ao serviço do Eixo, recrutado em Lisboa, não pela Abwehr, como era normal suceder, mas sim pelo Sicherheitdienst. A partir da Embaixada Portuguesa em Londres enviava cartas, escritas em tinta invisível, para os seus contactos em Lisboa, «Francisco Mendes» e «Manuel Castro», com informação com interesse militar, mas que, na realidade se veio a revelar de muito escasso valor. A leitura dos diários, permitiu-me enriquecer o meu conhecimento do caso em alguns aspectos relevantes. Primeiro, que foi John Bingham, da secção de Max Knight, quem esteve em contacto com Menezes, vigiando-o e apercebendo-se que, como espião, o seu trabalho era fraco, pois as mulheres pareciam ser a sua principal preocupação. Bingham era o pai da conhecida escritora Charllote Bingham, autora de um livro, publicado em 1963, quando tinha apenas dezanove anos de idade, sobre a vida da juventude britânica no final dos anos cinquenta, que em inglês se chamou «Coronet among the weeds» e em português, «Eu ele eles». Segundo, que a tentativa de o inutilizarem passou em primeira linha, pela eventualidade de mobilizarem a ajuda do Embaixador português em Londres, o anglófilo Armindo Monteiro, pai do escritor Luís de Sttau Monteiro, colocando-o ante o problema e esperando que ele o privasse, como acabaria por fazê-lo, da imunidade diplomática. Terceiro, que a questão ganhou relevo e chegou a ser discutida por Liddell com Dick Brooman-White e Sir Alexander Cadogan, sub-secretário permanente dos Negócios Estrangeiros. Quarto, que a recusa dessa via de solução diplomática, assentou no facto de o MI5 ter concluído que, para isso, seria necessário obter uma cópia de uma das cartas escritas em tinta invisível, o que levantaria suspeitas aos portugueses quanto ao facto de a mala diplomática nacional estar a ser violada pelos serviços secretos da nossa mais velha aliada. Quinto, que a carta em causa foi encontrada [«produced»] pelo «Triplex», o serviço clandestino de acesso à mala diplomática dos países neutrais. Sexto, que Londres foi sensível à circunstância de, ante a pressão gerada em torno da localização de Menezes, as autoridades de Lisboa terem procedidos à prisão de vinte e três agentes alemães entre os quais o próprio chefe local da Sicherheitdienst e assim a vida do homem das cartas de Londres foi poupada.
Devo confessar o meu júbilo em ter acedido a este livro. É que um leitor mais atento daquela minha biografia de Menezes pode concluir que quando ali afirmo que os ingleses acediam clandestinamente à mala diplomática faço-o com pouco suporte documental e apenas pelo cruzamente de uns quantos dados com algumas exigências da lógica. Agora tenho a prova, uma prova acima de qualquer suspeita.

Um livro em atraso


Num qualquer momento deste blog prometi que em 15 deste mês entregava na tipografia o livro biográfico da agente dupla Nathalie Sergueiew. De facto, é cada vez mais patente, que não vou conseguir cumprir esse objectivo. Mas uma coisa me alegra: documentos que eu julgava perdidos, referentes a uma pesquisa feita o Verão passado em Paris, encontrei-os, dentro de uma mala! Tentarei não me atrasar, neste projecto e em outros e encontrar tempo para eles. Fica aqui a foto de uma casa: a casa onde ela viveu em Paris, em frente à Opera. Fui de propósito fotografá-la. Felizmente, não fui em vão!

Um português no OSS


Amadeu Ferreira, de 82 anos de idade, faleceu em 17 de Agosto de 2005. Segundo informa o OSS, o serviço americano de informações e operações clandestinas que antecedeu a CIA,este português foi agente daquele serviço durante a 2ª GG. Antes de se aposentar era presidente da Divisão Internacional de Becton Kickinson & Co. em Franklin Lakes, New Jersey. Os sobreviventes incluem sua esposa de 53 anos, Patricia L. Ferreira de Stuart; o filho, Paul J. Ferreira de Stanford, Conn.; as filhas, Ann. F. Kelly de Cohasset, Mass. e Margaret T. Ferreira de Greenwich, Conn.; as irmãs, Hortense Coutinho e Celeste Monteiro, ambas em Portugal; bem como quatro netos. Sobre ele permito-me citar o que pode ser lido aqui: «Amadeu Ferreira - died at Martin Memorial Hospital South. He spent his formative years in Lisbon, Portugal, with his parents, Eugenie and Jaime Ferreira, who pre-deceased him. He served in the Army-OSS during World War II. He graduated from Brown University and began his career with Becton Dickinson and Company as assistant to the Foreign Sales Manager. He was assigned to the company's Mexican and Brazilian subsidiaries and was named Acting Director of the International Division in 1959 and Director in 1960. He retired in 1985 as President of the International Division. Survivors include his wife, Patricia, daughters, Ann F. Kelly and Margaret T. Ferreira; son, Paul J.(Kathleen) Ferreira and grandchildren, Meredith and Tyler Kelly and Megan and Kelly Ferreira. A Memorial service will be held at Peace Presbyterian Church. Arrangements are made by Martin Funeral Home and Crematory, Stuart, Florida. Published in the Stuart, Fl newspaper, Novembver 2, 2005.»

Oleg Kalugin e os arquivos da PIDE


Depois de ter publicado as suas memórias, Oleg Danilovitch Kalugin [na foto à direita, acompanhado de Harold Russel «Kim» Philby], general do Primeiro Directório do KGB viu-se em Portugal alcandorado a uma tal notoriedade que ele próprio se surpreendeu. Traduzida uma pequena parte da obra para português, o antigo agente da Lubyanka veio a Portugal onde seria entrevistado por José Paulo Fafe. Na ocasião, a natureza bombástica das suas revelações atirou-o para a ribalta, nomeadamente por tido a ousadia de afirmar que alguns dos Arquivos que a PIDE/DGS guardava na Rua António Maria Cardoso, tinham sido carregados para a URSS. Perante a gravidade de tais afirmações, constou então com foros de verosimilhança, que as autoridades portuguesas haveriam instaurado um processo de averiguações, para apuramento de responsabilidades. Tempo passado, há uma pergunta indiscreta a que não se resiste: alguém sabe da sorte de tal processo ou porque se deixou de falar no assunto?

Graham Greene: uma vida secreta

Image hosted by Photobucket.comEm 2 de Outubro de 2004 completaram-se cem anos sobre o nascimento de Graham Greene. O autor de «O nosso homem em Havana» foi escritor sobre temas de espionagem e entre Julho de 1941 e Maio de 1944 foi agente do MI6, na área da contra-espionagem. Portugal seria também o seu alvo. Estávamos em plena segunda guerra mundial. Para comemorar o acontecimento proferi uma conferência em Sintra, na Casa-Museu Ferreira de Castro, no dia da efeméride. De tal conferência, ainda inédita, publiquei um resumo na revista «Visão». Eis o texto do respectivo artigo.


Um homem que ficcionou a própria vida, vivendo-a duplamente e recriando-a ao contá-la, eis no campo literário, Henry Graham Greene: um escritor que conviveu com a realidade dos serviços secretos e disso faz narrativa para os seus livros. Perfazem-se no próximo dia 2 de Outubro, cem anos que ele nasceu.
A sua vida foi controversa, as biografias que se lhe dedicaram também.
O professor americano Norman Sherry levou doze anos a escrever dois volumes de uma obra sobre ele, que projectara em três tomos. Ao ter entrado no segundo momento desse seu aturado trabalho, o biografado morreu-lhe. Estava-se em 1989. Graham Greene faleceu em Vevey, um lugar aprazível para se viver.
Michael Shelden seguiu-lhe os passos, tentando encontrar a verdadeira natureza desse personagem ambíguo, dissimulado, evasivo.
Entrado na «disciplinada e digna fileira dos mortos», Graham Greene é ainda hoje um homem e uma colecção de máscaras da sua pessoa.
O essencial da sua vida pública resume-o à escrita.
O grande público associa-o nomeadamente a guiões para filmes, até porque muitas das suas obras acabaram vertidas para cinema. E não foi só «O Americano Tranquilo», essa narrativa parcialmente auto-biográfica, que descreve parte das suas andanças pelo Vietname. A sétima arte acolheu também muitos outros dos seus trabalhos, alguns em adaptações. É o caso de «O Terceiro Homem», em que Orson Welles tem um desempenho notável, e tantos outros.
Escritor laureado, mas que nunca chegaria a receber o prémio Nobel da literatura, na obra de Greene o tema da espionagem tem, porém, uma incidência muito significativa. Livros como «O nosso homem em Havana», «O Factor Humano», «O Agente Confidencial», ou são histórias vividas no âmago dos serviços de informações ou narrativas para cuja construção o envolvimento de Greene nos serviços secretos foi determinante.
O mundo secreto é uma experiência importante na sua vida.
Greene trabalhou pouco na espionagem e escreveu muito sobre a espionagem.
Parte do seu percurso nos serviços secretos tem a ver com Portugal, durante a Segunda Guerra.

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