24LAND

O conteúdo do presente blog foi hoje [17.02.2018] incorporado no blog 24Land [ver aqui] que mantenho sob o mesmo tema, escrito em língua inglesa. O objectivo é centralizar informação e tentar que ela tenha maior alcance.


A honra da Rússia

Chamava-se Galina e encontrámo-nos, como se clandestinamente, em Zurich, eu trazendo à vista um livro do Graham Greene. Tudo começara numa livraria escondida onde procurei, como pretexto, álbuns sobre São Petersburgo. Procurava-os sim aos russos brancos em Paris, e à sua organização, as ROV, às infiltrações alemãs. Por ela soube que a Marina Grey era a filha do general Anton Denikin. Mais tarde seguiria no encalço dos raptores do general Miller, do mesmo bando que raptara o general Koutiepov, os mesmos que assassinariam "Trotsky". 
Foram tempos em que li às pressas "Le General Meurt à Minuit" na nova Biblioteca Francesa, monumental, em forma de livro, em que hesitei escrever que o ouro do Banco de Espanha foi roubado pela "ajuda" internacionalista e carregada no porto de Cartagena. 
Tempos em que subi a Rue Daru, folheei-os aos álbuns sobre a honra da Rússia, de André Korliakov, vi, boquiaberto no "Nimas" em Lisboa "O Agente Triplo" de Eric Rohmer, sem saber que tinha estudado tudo isso, semanas antes, incluindo o papel ambíguo de Nikolai Skoblin.
Tudo isso para um livro, a biografia de uma extraordinária mulher. O meu melhor livro, acho eu, o menos lido.

Aterrem em Portugal

A gentileza de Carlos Guerreiro permitiu a gentileza da entrevista. Milita no mesmo campo que eu, no seu caso, no da aviação. Pode ler-se aqui. Tem um blog e um livro que resume assim: «O nome deste blogue é igual ao de um livro chamado “Aterrem em Portugal”, editado em finais de 2008 e que contém histórias de aviões e aviadores alemães, britânicos, americanos e outras nacionalidades que durante a II Guerra Mundial aterraram ou caíram no nosso país.São mais de uma centena os aparelhos que tiveram esse destino e mais de seiscentos os homens que passaram por aqui durante esse período. Foi possível entrevistar vários destes homens ou consultar documentos – incluindo diários pessoais- onde a passagem por Portugal é referida».
Um trabalho notável.

Polacos na guerra secreta em Portugal

Vindos da Rússia, pela mão de José Milhazes [aqui e aqui] chegam documentos que os serviços secretos soviéticos obtiveram junto do Ministério dos Negócios Estrangeiros polacos, remetidos pela Embaixada polaca em Lisboa. São relatórios do Embaixador da Polónia, Karl Dubic-Penter, com notas de conversa com o Presidente do Conselho de Ministros de Portugal, Oliveira Salazar. O encontro ocorreu em 13 de Março de 1937, quando da apresentação das cartas credenciais. A conversa teve como tópico a posição portuguesa face aos temas candentes da política externa. Encontrando um interlocutor profundamente informado, o Embaixador expõe uma proposta de colaboração dos polacos no combate ao comunismo, dado que para Salazar esse era o problema fundamental.  A colaboração viria a tornar-se efectiva durante a 2ª Guerra, como se encontra a ser detalhadamente estudado na Polónia [ver aqui]. Parte, enfim, dos inestimáveis serviços de uma Nação católica, que seria martirizada pela URSS e pelo III Reich. Citando do documento:
«Visto que eu tinha sido encarregado pelo Chefe do Estado-Maior e pelo chefe do 2º Departamento de estabelecer cooperação com o Governo português na base de informações sobre a III Internacional,  que prevê também a prestação de ajuda da nossa parte na organização da espionagem e acções de segurança, eu propus a SALAZAR ajuda nesse sentido. SALAZAR recebeu muito bem a minha proposta e disse-me que iria amplamente utilizar essa possibilidade»

O SOE em Portugal: duplicidade e traição

«Nesse dia frio de um novo ano que despontava chegava a Lisboa um inglês, jovem ainda, de aparência discreta, viajando com cobertura diplomática. Vinha de Londres. Tinha deixado atrás de si uma cidade preparada para a guerra. Sacos de areia por todo o lado protegem pessoas e edifícios. Balões de barragem tentam travar nos céus os progressos da aviação alemã. John Grosvenor Beevor, advogado da prestigiada firma de advogados Slaughter & May, conhecida como «O Círculo Mágico», ainda hoje uma das líderes nos meios forenses da Grã-Bretanha, havia sido recrutado para um organismo de quem nem o nome podia ser então revelado: o SOE». Assim abre um pequeno livro que escrevi sobre o que passou para a história como "a rede Shell".
Uma falha na formatação do texto eliminou o trecho onde referia quantos me antecederam na investigação que tenho desenvolvido sobre este tema: António Telmo, a quem devo gentileza de ter apresentado dois livros meus, Júlia Leitão de Barros que há vários anos abordou com solidez e rigor este tema depois descontinuado, Irene Pimentel, a quem se devem obras sucessivas, de cunho académico, em que o assunto da guerra secreta é recorrente, Rui Araújo, apesar deste me ignorar deliberadamente nas suas referências., gostaria eu de saber porquê. 
Apesar de ser um livro para o grande público estas menções eram devidas e tantas outras. Uma história é sempre a daqueles que a encontraram e de quantos a viveram.

O Lupi das barbas

Controverso, viveu no regime anterior, entre as informações e a propaganda. Homem das esferas do poder, tinha acesso directo ao Presidente do Conselho e ao Presidente da República. Em 1962 a PIDE diagnosticava-lhe tendências pró americanas e pró inglesas. O seu ocaso inicia-se com a morte de Salazar. O 25 de Abril trar-lhe-ia a liquidação da ‘Lusitânia’, a agência noticiosa que criara em 1944, e o exílio. Na juventude recusara um emprego que Fernando Pessoa lhe sugerira, de correspondente em línguas estrangeiras em firmas comerciais.


Dia 4 de Dezembro de 1941. Aviões nipónicos atacam a base naval americana de Pearl Harbour, no Pacífico. Apanhados de surpresa, os yankees mal têm tempo para reagir. O resultado é o desastre.
Nessa noite o jornalista Luís Caldeira Lupi jantara no Gambrinus com sua mulher. Terminada a cuidada refeição seguiram para o cinema, a poucos passos dali. O Politeama era na altura um local aprazível.
O rápido evoluir da Guerra não o deixava, porém, tranquilo. Prevenindo qualquer eventualidade, deixara no escritório da agência de notícias de que era correspondente em Lisboa, a Reuter, indicação quanto ao local onde poderia ser encontrado.
A meio da exibição do filme dá-se o inesperado. Pelo altifalante do cinema «o senhor Lupi é convidado a ir ao telefone». Surpresa entre todos os que assistiam à película. Que se passaria?
Era o seu colega da Associated Press, em Berna, lugar onde se centralizavam todas as informações oriundas do vários correspondentes na Europa, a dar conta do traiçoeiro ataque nipónico e a pedir uma reacção oficial portuguesa.
Os passos de Lupi haviam sido, no entanto, seguidos pelo engenheiro Espregueira Mendes, na altura Sub-Secretário de Estado das Comunicações. Atónito, registou os apressados apontamentos que elucidavam quanto ao que se passara. A notícia assustava, prevendo-se já as suas funestas consequências.
Haveria que prevenir. Dali mesmo se telefonou, por isso, para a residência de Oliveira Salazar, o Presidente do Conselho de Ministros, informando-o do sucedido. Pressuroso, Lupi acrescenta que ante esta situação a América já estava em guerra e o Alemanha «em breve seria liquidada».
Tudo se passava então num círculo restrito.
Solitário na sua reclusão na Rua da Imprensa, o Presidente do Conselho não tinha o favor de conselheiros ou assessores que hoje em grande número coadjuvam os membros do Governo.
Com uma manta de lã em cima dos joelhos, para assim poupar energia em aquecimento, Salazar seguia o curso da guerra através do telégrafo que ia deixando notícia dos progressos militares e dos principais actos das chancelarias.
Activo, fiel, Lupi, que o Papa João XXIII elevaria à condição de Visconde Baçaim, vivia de alma e coração a sua profissão. Fundara em 1944, dirigira durante anos o escritório da Associated Press em Lisboa. O jornalismo era a sua devoção, as informações o seu ‘métier’.
Salazarista convicto, não deixaria de ter, porém, problemas com o regime ou pelo menos com alguns dos seus quadros. A entrevista de Salazar a António Ferro, que marcaria em 1938 um ponto alto na propaganda do Chefe, e que o Diário de Notícias publicou, seria resumida de modo considerado indesejável pelo colaboracionista e obediente Sindicato dos Jornalistas. Colocado em suspeita o jornalista autor das transcrições, o nome de Lupi acabou referenciado. Do relatório final elaborado pela PVDE consta esta informação de síntese, da autoria de Agostinho Lourenço da Conceição Fernandes, o seu director: “(…) aparece uma vez mais o nome de Luís Lupi. O seu passado pouco recomendável leva-me a admitir que é capaz do que se suspeita e de muito mais. As suas afinidades e relações, que não se justificam pela sua categoria, o seu trem de vida muito e muito superior ao normal e sobretudo aos que desempenham idêntica profissão, fazem-me crer que o Lupi, esquecendo-se que é português, não tem dúvida em servir estranhos que lhe pagam bem, mesmo que seja para colaborar em campanhas contra a sua Pátria”.
Estava criada a suspeita sobre se o homem que em 1944 viria a fundar a agência “Lusitânia” não estaria a soldo de serviços estrangeiros de informações.
Mau grado o ciúme e o despeito, é verdade que se tornaria indispensável. Na sua residência havia um telefone directo com que comunicava directamente com Salazar. Às quintas-feiras era recebido pelo Presidente da República.
A antipatia por Ferro marcar-lhe-ia muito do seu destino. Numa sua interessante biografia, editada em 1995 e prefaciada por Paradela de Abreu, Wilton Fonseca lembra um acontecimento desse turbulento ano de 1938. Ferro, director do Secretariado de Propaganda Nacional haveria sugerido a Lupi que, através da Reuter, se passasse a falar “mais e melhor” de Portugal.
Agastado com o teor do convite e da sugestão, Lupi contra-ataca: “Em todas as circunstâncias, a Reuter é a única entidade com direito a decidir sobre qual o noticiário que deve ou não ser distribuído à imprensa e a ideia de nos oferecerem pagamento é absolutamente fora de questão”.
Estava criado o atrito. O “Lupi das barbas” como o individualizava Salazar, tornava-se mais útil nas informações do que na propaganda. Sem aquelas não há poder, sem esta não há regime. O homem que em 1936 escrevera ‘Achtung! Uma Civilização Ameaçada’ tornara-se o ‘informant’ e o conselheiro da Situação.

PS Na foto o Luís Lupi proferindo conferência na Sociedade de Geografia. Barbeado. Mais tarde o Regime rapá-lo-ia.

Ian Fleming: o gosto amargo

O JL pediu-me e publicou neste último número um pequeno texto sobre «um espião que tivesse a ver com a Literatura»:
Fiquei embaraçado porque a escolha é vasta.
Acabou por sair isto que, por estar já divulgado, permito-me citar, vendo que o tema da capa do jornal é «Espiões, literatura, sedução e mistério»:
«Podia ser Graham Greene, que tendo estado no desk português da Secção V do MI6 foi um notável escritor, ou Malcolm Muggeridge, que serviu o MI6 em Lourenço Marques e nos legou uma interessante obra literária, ou mais antigo, Somerset Maugham que, a mando dos serviços britânicos, esteve na Rússia czarista, com fundos clandestinos, a tentar salvar o governo de Kerensky. Era “chic” que fosse John Le Carré, nome literário que adoptou David Corwell, colaborador também do MI6 e do MI5 e cujas personagens têm um toque de polimento académico e por cuja escrita perpassa uma sempre bem recebida crítica ao “establishement” da comunidade oficial de “intelligence”. Escolhi Ian Lancaster Fleming e a sua criatura James Bond, porque, como escrevi num livro que editei quando do centenário do primeiro, tratam-se de uma e da mesma pessoa, uma interessante autobiografia comum. Há nos seus livros uma tragédia existencial e uma simbólica alquímica que Hollywodd malbaratou tornando 007 uma figura burlesca. Há uma transmigração de almas, como no caso do carro que fala, o “Chitty Chitty Bang Bang”, que escreveu estando no hospital a iniciar o processo que o levaria à morte. Escolhi-o porque «depois de uma certa idade, ninguém deve relacionar-se com alguém que deixe numa pessoa um gosto amargo no espírito ou no palato; méfiez-vous du sang apre», escreveu no seu bloco de apontamentos, a vida a escoar-se-lhe. Escolhi-o porque “You Only Live Twice”»..

"Romances de espionagem!

Uma pessoa mata-se a trabalhar. Passa dias nos arquivos, gasta uma pequena fortuna em livros e em documentos. Publica cinco livros que foram centenas de horas de investigação sobre a guerra secreta em Portugal enter 1939-1945. 
Depois lê isto aqui, citado a propósito do actual momento e dos "espiões" que foram descobertos nos EUA mais as trocas com espiões russos: «(...) analisa José António Barreiros, advogado, autor de romances de espionagem, incluindo um (Nathalie Sergueiew, uma agente dupla em Lisboa) que relata a actividade de uma espia russa em Portugal». Romances de espionagem diz ele jornalista que quando me telefonou se justificou dizendo conhecer a minha obra e a quem eu disse que hesitaria responder por me parecer que a mesma, sendo no campo do ensaio histórico podia não dar elementos que permitissem uma opinião credível sobre o que estava em causa.
Uma pessoa mata-se a trabalhar. Passa dias nos arquivos, gasta uma pequena fortuna em livros e em documentos. Publica cinco livros que foram centenas de horas de investigação. Depois sente-se uma palhaço às mãos deste mundo de superficialidades. Antigamente irritava-me porque amigos meus diziam que tinham gostado muito de ler os meus "romances policiais". Agora, às mãos da imprensa bem pensante passei a autor de "romances de espionagem". É por isso que quase não leio jornais. Na minha pele sinto a dos outros à mercê dos abutres da carne fácil, morta de pereferência.

Fim de uma exposição

Inaugurou-se, como aqui informei, em 25 de Outubro de 2008, uma exposição. Terminará, como aqui se anuncia, amanhã. Foi um esforço pelo qual estou grato aos que o proporcionaram, à vida por ter-me permitido. Em Portugal não existiu nada de semelhante. Não é que tenha grande importância. É só por ter sido uma pequena coisa que não havia. Aqui fica: obrigado, também àqueles a quem já não posso dizê-lo pessoalmente.

00Fleming: crítica a um crítico


Para que quem tiver lido a crítica e quiser ficar esclarecido, aqui vai o contraditório que espero a publicação em causa garanta. Como é mensal, levará um mês a efectivar-se, a acontecer.


«Vejo na página 66 da revista Os Meus Livros uma irónica contradição entre o meu livro 00Fleming, Ensaio sobre a Imortalidade merecer cinco estrelas e uma crítica rude ao mesmo, que o título da prosa «Ensaio sobre a banalidade» resume.
Deve um autor sujeitar-se à crítica sem réplica? Duvido. Mas o que um autor não pode é consentir que aos leitores seja servida, como se crítica fosse, uma análise em que se produzem afirmações erróneas, contraditórias. Rogo, pois, a publicação deste texto.
Dizer que o meu trabalho é «demasiado superficial para os entusiastas do agente 007 e demasiado impenetrável para quem procure nele uma primeira porta de entrada no universo de Fleming» é obviamente uma contradição patente. Os «entusiastas» do 007 são na sua maioria cinéfilos deliciados com as aventuras sem ideias com que Hollywood abastardou a personagem, quantos não leram um livro sequer de Fleming [desde as da Portugália as edições em português são quase nulas] e o meu livro não pretende declaradamente ser «uma porta de entrada» na escrita de Fleming, sim uma elaboração sobre ela, de outro modo teria outro estilo e não se chamaria ensaio. Na ânsia de jogar com palavras, o crítico nem percebeu em que nó se mete. Fosse só isso…
Dizer que o meu livro «pouco mais faz do que resumir aquilo que já conhecemos [sic] de centenas de obras anteriores», é de uma arrogância hilariante. O crítico obviamente não leu centenas de obras sobre o Fleming e se escreve assim só pode ser para se dar ares de conhecedor. No fim do livro cito as referências do meu trabalho, que começou nos Arquivos Nacionais britânicos.
Mas há mais. Afirmar que ignoro o impacto que o Bond cinematográfico «teve no próprio Fleming» é não saber nada, nem ter lido sequer o que escrevi com atenção. Fleming não teve tempo de vida para assistir senão a dois filmes da série e não se entusiasmou com nenhum. A cinematografia Bond começou em 1962, Fleming morreu em 1964.
Dizer que eu me disperso «demasiado nos aspectos ocultistas da obra» é não ter dado conta, primeiro, que eles são uma evidência num homem que traduziu um escrito de Carl Jung sobre o alquimista Paracelso, pelo que o tema tem de ser referido e, segundo, que eu confessadamente os reduzo [9 páginas em 102], exactamente para não alinhar o meu escrito nesse tópico que é causa de perda de credibilidade.
Com destaque, diz o crítico que um dos «contras» do meu livro é «demasiada confiança depositada em rumores», pois terei dito que «quando foi assassinado Kennedy estava a ler um livro de Bond». Gargalhada sonora. É óbvio que «quando foi assassinado» o malogrado Presidente não estava a ler livro algum! O que eu digo é que «na noite anterior estaria a ler um livro», condicional dubitativo percebe? E digo a seguir que tudo isso é «uma lenda». Cinco estrelas, sim, mas para o crítico! Pelas piores razões.
Em suma, se o meu livro é mau, esta crítica é péssima».

Joaquim Furtado: a guerra em África, uma ferida por sarar?


Em Faro. No Pátio de Letras, uma livraria, um espaço de convívio cultural. A casa cheia para ouvirem Joaquim Furtado falar sobre os documentários que tem vindo a realizar para a RTP sobre a guerra em África. Ambiente amigo, conversa emotiva, franca. Houve quem, pela primeira vez, tenha ousado dizer: «eu estive lá». Uma ferida na sensibilidade de Portugal e da suas antigas possessões além-mar começa a cauterizar-se, sangrando.

Obrigado Joaquim pela generosidade, obrigado Liliana, pelo esforço tremendo que tem permitido manter a iniciativa de pé.

No dia 25 inaugurar-se-á no Espaço de Memória uma exposição permanente sobre a guerra secreta em Portugal, entre 1939-1945. Faltam poucos dias e imenso trabalho. Surgirá.

Espaço de Memória

Inaugura-se hoje em Faro, pelas 17:30. Chama-se Espaço de Memória.

«Tudo começou há vinte anos: decidi então juntar à vida que já tinha vivido como advogado, uma outra, a aventura da escrita.
O tema surgiu, como tanto do que é importante na vida, de um acaso.
Comecei a escrever artigos na imprensa, assinando-os com parte do meu nome: Chamo-me José António Rebelo da Silva Barreiros, assinava como António Rebelo da Silva. Simbolicamente era parte de mim que assim se representava, a mostrar que restava o outro, para o qual sobejavam os nomes de José Barreiros.
Um dia, ganhei ânimo e juntei tudo em livro. Felizmente está esgotado, porque é daquelas obras que não nos envergonham, fazem-nos apenas sentir um acesso de timidez pela sua ingenuidade. Chama-se A Lusitânia dos Espiões.
Foi assim que surgiu este interesse pela guerra secreta em Portugal, entre 1939-1945. Verdadeiramente não sei porquê, mas na vida nem tudo tem explicação, porque há o mistério» [continua aqui]

The name's Bond, James Bond

Porque há milagres, terminei, com ilustrações do Abel Agostinho, um livro comemorativo do centenário do nascimento do escritor Ian Fleming. Ridicularizado por muitos por causa da criatura 007 que gerou e que Holywood degradou com a sua série de aventuras, há na sua vivência e na sua escrita mais profundidade do que imaginam os espectadores dos filmes inspirados na saga do agente que tinha «ordem para matar».
O texto está na tipografia e eu em ânsias quanto a ter saído alguma coisa mal. O lançamento é no dia 12, em Faro.

Goldfinger

Desta feita eis-me a terminar, finalmente, um livro sobre Ian Fleming, comemorativo do facto de se terem completado, em 28 de Maio, cem anos sobre o seu nascimento.
O prazo para entrega do texto à tipografia tem sido sucessivamente alterado, pelo cansaço, por outras obrigações sempre mais urgentes, pela vontade de aprimorar a prosa. Deste fim de semana não passa.
Quem lê nem imagina o trabalho que por vezes dá escrever.
Ian Fleming, inspirado em Otto Skorzeni, criou um grupo de comandos, uma unidade de assalto a que chamou 30AU. Ora sucedendo que o síbolo «au» é o do ouro, será por acaso que Auric Golfinger tem esse nome e o metal amarelo está presente praticamente em todos os livros do criador de 007?
Houvesse método alquímico de, através da pedra filosofal, eu transmutar este texto num livro já pronto, e nem hesitaria! Hermes Trimegisto me valha!


Centenário de Ian Fleming-Conferência no Estoril


Comemora-se no próximo dia 28 de Maio o centenário do nascimento de Ian Fleming. Estou a aprontar um pequeno livro de rememoração. Por gentileza do Presidente da Câmara Municipal de Cascais no próximo dia 28, pelas 21 horas, profiro no Estoril, no Espaço dos Exílios (antiga Estação dos Correios) uma conferência sobre a vida e a obra deste escritor cuja obra literária ultrapassa em muito aquilo que o cinema popularizou em torno da sua criatura: James Bond, o agente 007.

Ainda Howard

Obrigado à Teresa Guerreiro, infatigável coleccionadora de fotografias, o ter encontrado este momento em que o Século Ilustrado recordava que há trinta anos o actor Leslie Howard havia estado em Portugal, a proferir conferências. Sobre isso e sobre a circunstância de, ao haver regressado a casa, ter encontrado a morte, pois o avião onde viajava foi atacado pela Luftwaffe, escrevi um livro. Nele contámos a história em texto e em banda desenhada, esta com o traço do Carlos Barradas. Na foto, à direita, o seu empresário Alfred Chenalls, que também morreria na fatídica viagem. Treze passageiros a bordo, número aziago. Depois de ter escrito o livro encontrei ainda, saudosa, uma cativante figura de mulher a quem ficou, numa solitária fotografia, a recordação do momento grato dessa sua passagem por Lisboa.

Casino Royale

No dia 28 de Maio comemoram-se cem anos que nasceu Ian Lancaster Fleming. Oficial dos serviços de informações da Marinha Britânica, o NID, esteve em Portugal, a acompanhar o almirante John Godfrey, a caminho da América, e participou na implantação de algumas operações secretas que envolvem a área ibérica.
Retirado do serviço militar, iniciaria aquilo que o levaria a figura de renome mundial, a actividade de escritor. Em 1953 publicaria Casino Royale, uma novela de suspense, em que o agente comunista Le Chiffre joga a partida da sua vida, na ânsia de poder recuperar os fundos do Partido, sem o que estaria à mercê do SMERSH, o cruel serviço de execuções de Moscovo, resopnsável pelo assassinato de Trotsky no México.
Redigido no ambiente da guerra-fria, na Jamaica, a cena do livro inspira-se numa passagem do autor por Lisboa, diz o site oficial do MI6. No livro a cena ocorre num casino que Fleming situa em Royale-les-Eaux, junto ao Somme. É aí que se dá a batalha decisiva entre os dois agentes, 007 a ter de vencer entre «um murmúrio de amor, um murmúrio de ódio».
É sobre isto que, por mais fantástico que pareça, estou a terminar um pequeno livro; a terminar ou a começar, conforme a perspectiva das coisas. Estará pronto a tempo.

A casa da Laura


Quando eu escrevi o guião para o livro sobre a morte do actor Leslie Howard senti uma dificuldade. Sabia que uns dias antes de embarcar, em Lisboa, para o fatídico voo em que encontraria a morte, Howard tinha jantado em Cascais com o seu amigo Ralph Chennals, no restaurante Casa da Laura.
Ora uma vez que o livro tinha, para além do texto no qual a história era narrada no seu rigor histórico, um fólio em que era contada com um ou outro elemento de fantasia, em banda desenhada, e como eu não consegui encontrar então nenhuma foto de tal reputado restaurante, optei por um expedidente:
o Carlos Barradas, autor das pranchas, desenhou a cena como se vista em plano picado, do alto.

Ora não é que o destino me fez encontrar agora, precisamente neste blog, aquilo que eu nem sonhava poder vir a encontrar?

Uma carta num livro

Ao escrever este livro apaixonei-me por esta mulher. Morreu aos trinta e oito anos, depois de uma vida em que viveu múltiplas vidas. Por causa dela fui três vezes a Bristol, em busca de uma sombra sua, por causa dela calcorreei as ruas de Londres para encontrar a casa onde viveu, e que uma bomba na Segunda Guerra arrasou, vagueei, tentando senti-la, pela Praça da Ópera em Paris, local para onde se exilaram os pais, vindos da Rússia czarista. Estive em São Petersburgo, local onde nasceu em 1912, com ela no pensamento. Ao descer em Zurique uma pequena rua empedrada entrei numa livraria de livros russos, perdi-me pelo incompreensível cirícilo, marquei encontro com uma desconhecida em frente ao Crédit, eu, qual candidato a namorado, com um livro do Graham Greene, ostensivo, a assinalar que era eu, ela, tímida, a dar-me tudo o que sabia sobre a honra perdida da Pátria de Puskin, uma lágrima impossível de suster ao mostrar-me uma entrevista da filha do general Dénikin.
Segui todos os seus passos, a viagem a pé Paris/Varsóvia, em 1933, com vinte e um anos de entusiasmo, a viagem de bicicleta Paris/Líbano, em 1938, uma coragem inaudita, sempre a solidão a persegui-la, a arte e a escrita como sublimação. Vi-a, como se a tivesse visto, a subir a pé, em 1943, a Avenida da Liberdade em Lisboa, agente dupla ao serviço da causa aliada.
Encontrei-lhe, hoje nonagenário, um indiferente marido, num lugar perdido no Massachusetts. Li as cartas que escreveu, doente, a vida a escoar-se-lhe e ainda movendo-a uma raiva gigantesca de viver.
Por causa desta mulher escrevi um livro que é uma despercebida carta de amor ao que de melhor pode haver numa mulher. Hoje atrevo-me a dizê-lo, talvez pela razão ridícula de ser o dia da mulher, que isso me dói, por ela. Talvez não devesse dizê-lo. Mas é-me impossível evitar ter acordado com isso no pensamento.

Uma aventura na Praia dos Coelhos



É já na sexta-feira, em Setúbal, na Biblioteca Municipal -Av. Luísa Todi, nº 188, pelas 18:00, uma conversa sobre o «Ostro», o espião checo pró-Eixo que viveu em Portugal, anos seguidos, a coberto de uma firma comercial de import-export: Paul Fidrmuc e «Uma Aventura na Praia dos Coelhos».

No mesmo dia, sai um livro, um pequeno livro que um milagre permitiu que eu conseguisse escrever. Tinha prometido aqui, agora cumpro!

A Polónia, nação mártir



A Polónia foi o primeiro país a enfrentar a Guerra decretada por Adolph Hitler. Comemora hoje, dia 1 de Setembro, 68 anos desse trágico acontecimento. Dias depois o país era invadido pela URSS. A Rádio Polaca dedicou uma emissão especial ao assunto. O martírio deste povo e o seu inaudito sofrimento não pode ser esquecido.

Camuflagem aérea

Uma das artes essenciais para a guerra é a dissimulação, sob todas as formas. Uma delas é a camuflagem. Os engenheiros da Lockheed aprenderam como. Veja-se aqui como esta fábrica de aviões foi escondida, para evitar ataques japoneses.

O sofrimento silenciado

O livro promete ser escandaloso ao falar do sofrimento dos alemães após a derrota em 1945. Tema tabu, pois apenas um dos lados era suposto ter sofrido atrocidades. Da recensão feita pelo Washington Post retiro: «During the forced expulsions of about 12 million Germans from the Reich's eastern provinces, mostly from territory that became part of the newly reconstituted states of Poland and Czechoslovakia, about 2 million died». Quando a História é escrita pelos vencedores, a verdade dos vencidos leva tempo a ser admitida, mesmo aqueles que estiveram em paz com a guerra.

von Stauffenberg


Vai ser rodado um filme sobre o atentado contra Adolph Hitler perpetrado por um grupo de resistentes de que fazia parte o Conde Claus Philipp Maria Schenk von Stauffenberg.
A polémica estalou porque foi escolhido para o papel o actor Tom Cruise, conhecido pelas suas ligações à igreja cientologista.
Como já referi aqui, a propósito de Graham Greene, sucedeu que «Otto John, que foi advogado da Lufthansa em Lisboa que, estando implicado, conjuntamente com o conde Stauffenberg, na conspiração para assassinar Adolph Hitler, se refugiou em Lisboa, de onde foi exfiltrado através da actuação de Rita Winsor com a insólita conivência do capitão Catela da PVDE, que, para esse efeito o prendeu no Aljube, protegendo-o dos agentes da Gestapo».
Estranha ligação: um dirigente a PVDE, ajudado por uma agente do Mi6, a dar saída a um assassino de Hitler! Isto sim é polémica!

007: Ian Fleming para o ano!

Segundo anuncia o «Times» de Londres, em Março do próximo ano o Imperial War Museum albergará uma exposição sobre Ian Fleming, mais concretamente sobre o seu principal personagem James Bond. Ben Macintyre escreve actualmente o livro que acompanhará a exposição, a ser editado pela Bloomsbury, sob o título «For your eyes Only».
Ian Fleming trabalhou durante a 2ª Guerra no Departamento Naval da Marinha, sector de informações. Reformado escreveu em 1952 a sua primeira novela sobre espionagem, «Casino Royale». 12 anos depois faleceria tendo deixado catorze novelas em que o principal personagem é o agente «007».
Há quem suponha que a história inicial foi inspirada na passagem de Fleming por Lisboa, onde, na companhia do almirante Godfrey, se dirigiu à América. Não parece que o ambiente sombrio do Casino Estoril, que então visitou, o tenha grandemente inspirado.
Personagem mais denso do que se pode presumir ante os filmes que foram rodados a partir dos seus escritos «ainda estudante na Universidade de Genève, por exemplo, Fleming correspondeu-se com o filósofo e cientista Carl Gustav Jung, de quem obteve, aliás, em 29 de Novembro de 1929, uma autorização escrita para traduzir um discurso sobre o alquimista Paracelso (de seu nome aliás Aureolus Philippus Theofrastus Bombastus von Hohenheim, nascido em 1493, na Suiça)». Escrevi-o no meu primeiro livro sobre esta temática, «A Lusitânia dos Espiões», felizmente fora do mercado!
P. S. Quem quiser muito sobre 007, veja-o aqui!

Documentos soviéticos desclassificados

De acordo com notícias divulgadas pela imprensa, o Ministério da Defesa russo desclassificou documentos referentes ao Exército Vermelho e à Marinha soviética referente aos anos de 1941-1945. Trata-se de documentos conservados no Arquivo Central do Ministério, em Podolsk, onde se conservam cerca de quatro milhões de espécimes. Igualmente serão libertos documentos do Arquivo Naval Central em Gatchina e do Arquivo Médico Militar em São Petersburgo.
A abertura progressiva dos arquivos russos é uma realidade, embora por vezes aparente para o investigador ocidental.
Na óptica russa a libertação da informação é apresentada na perspectiva dos seus próprios interesses. Não admira que a informação seja divulgada como permitindo a reconstituição do número de baixas soviéticas durante a Segunda Guerra, estimado em 26.600 milhões, including 8.660 milhões no sector militar.

«Ostro» em Setúbal

Os meus trabalhos de investigação sobre a guerra secreta não estão parados, mas baralharam-se um pouco desde a edição do último livro. Estou a recomeçá-los, com maior sistematização. A minha próxima iniciativa vai ser uma conferência em Setúbal sobre o agente checo Paul Fidrmuc, cognome «Ostro». O episódio que irei contar sucedeu na Praia dos Coelhos. Entretanto hesito a que livro dedicar-me. Alguma coisa sairá.

Câmara Clara

Reencontrei no arquivo da RTP2 o vídeo de uma entrevista [abre em Real Player] dada em 16 de Fevereiro de 2007 a Paula Moura Pinheiro, em conjunto com o Francisco Teixeira da Mota. Vim fixá-la aqui, uns dirão por vaidade, outros denunciarão que por propaganda, uns poucos sem perceberem por quê. A verdade é esta: é para não a perder, como sucede a tanta coisa que escrevi e programas a que fui e de que não guardei nada. Ainda por cima saíu um programa bem disposto, o que até mim, sujeito bisonho e figura sisuda me espanta. Nela, falo de um livro que escrevi, a biografia de Nathalie Sergueiew. entre outras coisas. Quando saí do estúdio vinha cheio de ideias. Depois o camião da vida e suas obrigações atropelou-me, partindo-me as pernas, e cheguei ao Verão a mancar. Mesmo assim, ainda consegui escrever um livro, de contos lamurientos, naturalmente.

Leslie Howard: um novo livro em Janeiro


Estou este fim de semana a fechá-lo, revendo provas de autor, articulando com o «cartoonista» a versão definitiva das pranchas. É o livro que escrevi sobre a morte do actor Leslie Howard, quando regressava a Inglaterra, depois de uma missão a Portugal e a Espanha, ao serviço da propaganda britânica, patrocinada pelo Bristish Council.
O livro associa o talento de Carlos Barradas a um trabalho meu de redacção do guião da BD e de um texto em que a história é narrada com detalhe e os enigmas que ainda hoje suscita, equacionados. Fecha-o um texto do professor Douglas Wheeler.
Costumam perguntar-me como é possível que eu arranje tempo para isto. Respondo: vivendo a vida real não profissional através da escrita, até ao partir da lombada!
Se tudo correr bem, o livro estará nas livrarias no final de Janeiro! É pró menino e prá menina, pró papá e prá avózinha!

Tarrafal: 70 anos depois, o PCP

Não sei como, mas ainda consegui estar ontem, ao fim da tarde, no Centro de Trabalho do Partido Comunista Português, onde as edições «Avante!» lançaram um livro comemorativo dos 70 anos da abertura do Campo Prisional do Tarrafal, para cuja apresentação fui convidado. Sala repleta, a maioria seguramente de militantes do PCP. Escutei com atenção os discursos, sobretudo o de Jerónimo de Sousa, anatemizando o «branqueamento da história» feito por alguns «historiadores», cujos nomes foram ali referidos pelo responsável pela editora. Em tempos estudei o problema do Tarrafal por causa do que publiquei sobre o Cândido de Oliveira, que ali esteve internado. Dei conta disso neste mesmo blog, como pode ser encontrado -» aqui.
O que me fez alguma espécie foi não ter visto nesta edição ali lançada qualquer alusão à prisão de «mestre Cândido» e à sua passagem pelo Tarrafal. Seguramente que poderá ser por ele não ser comunista e a obra ser, no essencial, dedicada à situação dos comunistas e ao seu papel na denúncia do que ali se passava. Mas o que não posso deixar de referir é o facto de, contendo o livro uma cronologia dos principais eventos ocorridos no Campo, e tendo o fundador de «A Bola» chegado ali em 20 de Junho de 1942, nessa cronologia salta-se de Abril de 1942 para Setembro de 1942 e assim nem a sua entrada prisional merece uma palavra de registo.
Cândido, um casapiano que foi inspector dos CTT, escreveu como se sabe, um livro chamado «Pântano da Morte» que é uma denúncia do que se vivia naquele mortífero lugar. Nélida Freire Brito num recentíssimo livro chamado «Tarrafal na memória dos Prisioneiros» cita-o na bibliografia e várias vezes ao longo do texto o seu testemunho.
Como se sabe a sua deportação para o Tarrafal deve-se à sua colaboração com os serviços secretos ingleses do SOE.
Ainda no tempo em que era vivo o Luís Sá, esclarecido militante comunista, lhe perguntei se na rede de anti-fascistas que colaboraram com Londres para preparar, no quadro do SOE, meios clandestinos destinados a enfrentar uma invasão alemã de Portugal não estariam militantes comunistas. Explicou-me que o problema era complexo. Ontem, ao ter ouvido o que ouvi e folheado compreendi que sim. Gostava que alguém mo explicasse. Talvez o Homero Serpa, que escreveu uma biografia do fundador do jornal de que o filho é director, «o jornal de todos os desportos» tenha conseguido perceber. Eu confesso que não.

Ralph Fox: uma verdade pouco nua


No Verão de 1936, Ralph Fox, um fundador do partido comunista britânico, que havia escrito uma biografia de Lénine e outros livros sobre o marxismo, veio a Portugal, a caminho de Espanha, onde se alistaria nas Brigadas Internacionais, contra as forças de Franco. A passagem por Lisboa, que, apesar de ter durado apenas uns dias, daria um livro, que seria editado em 1937, depois da sua morte, que ocorreria nesse mesmo ano. O livro visa mostrar o comprometimento do governo de Oliveira Salazar com os nacionalistas espanhóis e a complacência dos ingleses quanto a tal facto. Pelo caminho fica uma descrição crítica do regime da Ditadura Nacional que nos governava e do próprio país e seus nacionais. Embora o autor refira incidentalmente que tentava descobrir «se os carregamentos de armas continuavam a ocorrer», a verdade é que no livro as referências aos negócios de armamento via Lisboa limitam-se a pouco mais do que conversas ouvidas no bar do Hotel Vitória, então um centro de concentração fascista e hoje, paradoxo do destino, uma das sede do PCP. O título na edição portuguesa é o mesmo da edição original inglesa «Portugal Now». O que está a mais é o subtítulo: «um espião comunista no Estado Novo». Porque sobre espionagem o livro, atraente como todos os da editora Tinta da China, tem nada. Tem ironia, tem inexactidões, tem observações interessantes, outras simplórias, mas merecia uma apresentação que não o desvirtuasse. Como diz o autor, a pretexto da estátua do Eça de Queirós, trata-se de «uma verdade pouco nua».