24LAND

O conteúdo do presente blog foi hoje [17.02.2018] incorporado no blog 24Land [ver aqui] que mantenho sob o mesmo tema, escrito em língua inglesa. O objectivo é centralizar informação e tentar que ela tenha maior alcance.


Anthony Haigh, notícia no APN


Na sua edição de 30 de Dezembro de 1943 o jornal bilingue The Anglo-Portuguese News, dirigido por Luiz Marques [veja-se sobre a sua vida o livro Notícias de uma Família Anglo-Portuguesa, de Ana Vicente, aqui], casado com Susan Antonia Dorothea Priestley Lowndes [ver aqui a notícia necrológica], pai do recentemente falecido Advogado Paulo Lowndes Marques, noticiava que Anthony Haigh, que durante três anos desempenhara a função de Primeiro Secretário da Embaixada britânica em Lisboa, fora nomeado para um cargo no Foreign Office, em Londres, pelo que em breve deixaria a capital. 
O jornal registava o contributo do diplomata para com o jornal onde editara alguns dos seus estudos arqueológicos.
O APN tinha motivos para anotar a circunstância com relevo, pois o diplomata havia sido um instrumento essencial para o apoio à sua publicação enquanto órgão de imprensa em língua língua existente que subsistia no exterior, embora em condições adversas, inclusivamente no plano financeiro.


Haigh, funcionário de actuação discreta, havia sido também essencial à concretização de um facto político da maior relevância, a visita de uma delegação da Universidade de Oxford a Portugal para o efeito da aposição a 19 de Abril de 1941 das insígnias de doutor honoris causa a Oliveira Salazar [ver a cota para o documento oficial nos Arquivos Nacionais aqui], tributo de respeito com significado diplomático mais do que evidente naquele momento.

Regressado das sombras


Mantive este blog recolhido durante mais de um ano. Tinha-o começado em 2005. Oito anos de distância. 
Arquivei nele parte do que foi o meu empenhamento pelo tema da guerra secreta em Portugal, matéria sobre a qual reuni, para estudo, centenas de livros, documentos, sobre a qual entrevistei pessoas, fiz inúmeras viagens, tenho um mundo de histórias para contar.
Na altura sentia-me um cavaleiro solitário. Apenas o António José Telo tinha escrito um pequeno livro dedicado ao mundo da dita "espionagem" e também da propaganda em Portugal entre 1939 e 1945. Para além dele, só a Júlia Leitão de Barros escrevera para a revista História um artigo sobre a "rede Shell". 
Depois de mim Rui Araújo foi o primeiro a afirmar-se sobre a matéria sobretudo com o seu segundo livro construído a partir dos diários de Guy Liddel.
Hoje o tema popularizou-se, passou para as revistas, para versões simplificadas e ficcionadas. que só o desvirtuaram e criaram um público um apetite precário para as facetas meramente anedóticas do assunto, as que procurei evitar trabalhando sobre fontes primárias e tentado confirmá-las cruzando informações, tantas vezes, mesmo assim, errando.
No panorama surgiram entretanto autores estrangeiros que o mercado editorial consagrou, que não conhecendo sequer a língua portuguesa escrevem sobre a Lisboa dos espiões e nós, provincianos por atavismo, curvamos a cerviz, rendidos ao que vem de fora.
Não consigo contar as horas nem o esforço que significou tudo quanto fiz, o dispêndio financeiro, as crises de alma.
Passei pelo meu mau momento, aquele em que a meio do percurso o corredor de fundo hesita. Lancei então os olhos para o exterior, tentando encontrar ali um espaço de diálogo através de um blog escrito com o meu sofrível inglês, o 24 Land. O resultado foi conseguido, o único senão a minha irregularidade na relação com a iniciativa.
Hoje o panorama mudou.
Irene Pimentel, com responsabilidades universitárias, acaba de editar um volume sobre o tema na sua generalidade, que aguardo para uma leitura atenta. O mundo académico começa a estar atento ao tema. Outro livros, cuidadosos, surgiram e estão em geração.
Tudo isto levou-me a rever a minha ligação ao tópico a que me vinculara. Reponho hoje no ar este blog onde ficará o sinal do reencontro. Para o 24Land passarão as linhas essenciais do que aqui se disser.
Como ilustração deste post vai a capa do meu primeiro livro, escrito em 1995, hoje felizmente sumido salvo em um ou outro alfarrabista, aventura ingénua de um tempo em que eu balbuciava ainda, juntando ali crónicas que deixara dispersas por jornais, muitas sob um pseudónimo que só muito mais tarde revelaria. É a demonstração gráfica de uma longa caminhada e dos tropeções que se dão quando se prossegue entre veredas por vezes na noite escura das dificuldades que a vida cria.
Gostava que esta minha declaração não fosse tomada como um sinal de arrogância intelectual nem de falsa humildade, apenas como a expressão de quem se liga ao mundo não apenas pela racionalidade do intelecto mas igualmente pelos sentimentos do coração e que ganha sobretudo apego ao que o cerca como parte do Mundo total de que faz parte.
Ao findar do ano, talvez isto assim faça sentido. Bom Ano!

Rudolf Hess e Lisboa...



Quando o delfim de Adolph Hitler voou para Inglaterra, saindo secretamente da Alemanha, aos comandos do seu avião, fazia uma viagem qua havia sido preparada a partir de Lisboa. No meio de tudo isso seduções ocutistas e manobras de aliciamento haviam tido o seu papel.
Pelas 23:00 do dia 10 de Maio de 1941, Rudolf Hess, o delfim de Adolph Hitler, pilotando sozinho um avião Messerschmitt, com a matrícula "Mel 110" sobrevoou a Escócia e lançou-se de pára-quedas naquela região. 
Ao cair, partiu uma perna e foi aprisionado. Os seus captores nem queriam acreditar no que tinham pela frente.
Naquele momento Londres era severamente bombardeada.
Retirado do centro para um refúgio clandestino, Winston Churchill assistia à projecção privada de um dos filmes dos irmãos Marx. Quando lhe contaram o que acabava de suceder, o primeiro-ministro britânico, bem-humorado, replicou "ora aí está uma boa piada para os irmãos Marx". O acontecimento parecia, de facto, burlesco.
A razão da enigmática viagem de Hess tem alimentado várias teorias.
O facto de Hess pertencer à ordem iniciática de Thule de que fieram parte Anton Drexler, o primeiro presidente do Partido nacional socialista alemão, Dietrich Eckart, poeta e mentor de Adolph Hitler e Alfred Rosenberg. Nesta linha, Richard Deacon afirma mesmo que Hess haverá consultado, antes de fazer a sua viagem, dois conhecidos astrólogos, Ernst Schulte-Strathaus e Maria Nagengast.
Berlim, logo após o evento, espalhou que ele teria agido, porém, em estado de loucura.
A verdade é que o próprio José Estaline estaria convencido de que haveria uma combinação preparada entre os ingleses e os alemães, para um ataque concertado à União Soviética e a viagem de Hess visaria precisamente a concretização de tal esquema.
Ainda em 1990, apoiando-se num relatório de Harold Russell («Kim») Philby, o KGB patrocinava esta tese junto de meios académicos, fazendo-os convencer que a viagem de Hess resultara de uma combinação anglo-germânica.
Caricato, a propósito, é que - segundo a revelação de Pavel Sudoplatov, o homem das operações especiais soviéticas - o relatório em causa estaria classificado nos serviços do NKVD sob o nome «Bertha Negra», por ser esse o nome pelo qual Hess seria conhecido em meios homosexuais de Munique na década de 20.
Uma coisa parece certa. Hess voou com o declarado objectivo o de avistar-se com um nobre escocês, o conservador Duque de Hamilton, tal como ele um exímio aviador. Alegou que via nesse encontro uma forma de negociar uma paz separada entre a Alemanha nazi e a Grã-Bretanha.
O MI5 sabia, porém, que o encontro entre os dois vinha a ser preparado desde há muito através de correspondência entre o próprio Duque e Albrecht Haushofer, seu amigo desde 1936, e representante de Hess, a quem devia o título de “ariano honorário”. 
O alemão era filho do major-general Karl Haushofer, teórico de geopolítica, doutrina então assimilada pelo III Reich alemão como instrumento de legitimação da sua procura imperialista do "espaço vital". Professor de Geografia Política e homem de letras, Albrecht Haushofer viria a integrar-se na resistência alemã a Hitler e seria preso na penitenciária de Moabit, tendo sido ali morto a tiro em 1945 já com Berlim a ser ocupada pelas tropas soviéticas.
Para o efeito de organizar uma entrevista entre Hess e Hamilton, Albrecht escrevera em 23 de Setembro de 1940 uma carta a este que a censura postal britânica interceptou. 
O envelope mencionava como remetente "Dr. A. H." e indicava como morada do expedidor "Minero Silvicola, Lda., Rua do Cais de Santarém, 32, 1º", junto à Casa dos Bicos. Na carta o seu autor assinara "A. via Mrs. Roberts". A senhora existia. Tratava-se de Mary Violet Roberts, enteada de Lord Roberts, que tinha sido Vice-Rei da Índia britânica, viúva de Ainslie Roberts.
A morada funcionava como um endereço de conveniência ao serviço de uma organização secreta alemã a "Auslandorganisation", uma entidade criada em Hamburgo em 1931 pelo Gauleiter Ernst-Heinrich Bohle, um alemão educado na África do Sul, e que acabaria por centralizar o apoio dos alemães no exterior em prol da nova ordem nacional-socialista.
A "Minero Silvícola, Limitada" era uma firma comercial fundada em 1938 por Louis Manfred Stiegler, Volkmar Fritzsche, este residente desde 1933 no Dafundo e também na Rua Ivens em Lisboa e Theodor Vollmer, residente desde 1934 na Rua Luciano Cordeiro em Lisboa. Esteve em funcionamento até 1962.
Para o encontro Hess/Hamilton Lisboa funcionou como um centro nevrálgico.
A 10 de Setembro de 1940 Hess escrevia a Albrecht, através do pai deste, uma carta preparando através do endereço de Lisboa um canal não oficial de comunicação. Nessa missiva Mrs. Roberts é tratada, familiarmente, como «a velha senhora»
A 23 de Setembro Albrecht, usando o dito canal de comunicação, entrava em contacto com o Duque, a quem tratava afectuosamente por «Douglo», sugerindo que se encontrassem algures na Europa, porventura em Portugal.
O encontro em Lisboa era possível. Nesse ano, o regime de Salazar comemorava com pompa e circunstância os “centenários”. Para o evento viria de Londres a Lisboa, em representação do Rei Jorge VI, um duque, o de Kent.
Hamilton nunca chegaria a viajar até Lisboa para se encontrar com Rudolf Hess. Este cair-lhe-ia na Escócia, vindo do céu.
Terminada a guerra, Hess, julgado em Nuremberga, escapou à pena de morte - contra o voto do juiz soviético - mas foi internado em Spandau, e ali mantido prisioneiro, sob insistência de Moscovo, mesmo quando se multiplicavam as iniciativas inglesas e americanas para o libertar.
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É facto que não só Hess - como aliás outros dirigentes nazis, nomeadamente Himmler - estava enraizado em práticas astrológicas e ocultistas.
E também é certo que, sabendo disso, os serviços secretos ingleses exploraram esta fixação para induzirem contra-informação, e deste modo, alimentarem a sua «guerra negra» contra Hitler, estrurando mesmo no departamento de guerra, uma unidade operacional astrológica, sob a direcção do correspondente do jornal Daily Express, Sefton Delmer, se intitulava melifluamente «Psychological Research Bureu».
Um dos mais distintos agentes de tal serviço astrológico foi o húngaro Louis De Wohl - judeu refugiado do regime nazi. A habilidade de De Wohl levou-o mesmo a elaborar edições falsificadas da prestigiada revista astrológica alemã «Der Zenith», difundido nela previsões de dias fastos e nefastos para operações militares, assim tentando induzir comportamentos militares aos alemães mais convenientes para a estratégia aliada.
Como anotou então Joseph Gobbels no seu diário: «os videntes tão amados de Hess, para já, ficam guardados à chave».
Quem se ofereceu, aliás, para interrogar Hess quando este, ferido, foi capturado? Aleister Crowley, mago, vidente e cabalista, que se encontrara em Lisboa com Fernando Pessoa. Ofereceu-se a Ian Fleming, o criador de 007, que à data servia nos serviços secretos da Marinha, sobre cuja vertente esotérica escrevi, aliás, um livro. A viagem planeada a partir de Lisboa é, pois, um mistério ainda por sondar.

Traição a Salazar - apresentações

 
 
 
 
 
 
 
 

A 2 de Setembro de 1939: a neutralidade portuguesa


A Polónia, ocupada pelos alemães durante 123 anos, recuperou a soberania em 1919, após a revolta do seu exército. Nesse ano o País é invadido pela tropas soviéticas, na lógica bolchevique de fazer estender o comunismo para Ocidente. Após duras batalhas, e com a derrota das tropas soviéticas, a paz em assinada pelo Tratado de Riga, a 19 de Março de 1921.
A 1 de Setembro nova invasão do território polaco, desta vez pelas tropas de Adolph Hitler, rumo a Leste, para cumprir os desígnios assinalados pelo Führer no seu livro profético, Mein Kampf, de extirpação do comunismo. A Alemanha já havia anexado a Áustria e a Checoslováquia. A invasão fora secretamente negociada entre Estaline e Hitler, através de uma cláusula secreta contida no vergonhoso Pacto Ribbentrop/Molotov.
A paz na Europa está definitivamente comprometido. Em Lisboa o Diário de Notícias titula na primeira página "A Guerra".
Prevendo o devir dos tempos, a 2 de Setembro o governo português emite a sua declaração de neutralidade. Fê-lo, não através de uma lei, que amarraria o Governo, mas, com inteligência, através de uma simples nota à imprensa, o que, como sublinharia o embaixador Franco Nogueira na sua biografia de Salazar, deixava o campo aberto a uma alteração da linha de rumo:

«Apesar dos incansáveis esforços de eminentes chefes de governo e da intervenção directa dos chefes de muitas nações, eis que a paz não pôde ser mantida e a Europa mergulhada, de novo em dolorosa catástrofe. Embora se trate de teatro de guerra longínquo, o facto de irem defrontar-se na luta algumas das maiores nações do nosso continente - nações amigas e uma delas aliada - é suficiente para o grande relevo do acontecimento e para que dele se esperem as mais graves consequências: Não só se lhe não pode ficar estranho pelo sentir, como há-de ser impossível evitar as mais duras repercussões na vida de todos os povos.
Felizmente, os deveres da nossa aliança com a Inglaterra, que não queremos eximirmos a confirmar em momento tão grave, não nos obrigam a abandonar nesta emergência a situação de neutralidade.
O governo considerará como o mais alto serviço ou a maior graça da Providência poder manter a paz para o povo português, e espera que nem os interesses do país, nem a sua dignidade, nem as suas obrigações lhe imponham comprometê-la.
Mas a paz não poderá ser para ninguém desinteresse ou descuidada indiferença. Não está no poder de homem algum subtrair-se e à Nação às dolorosas consequências de guerra duradoura e extensa. Tendo a consciência de que aumentaram muito os seus trabalhos e responsabilidades, o Governo espera que a Nação com ele colabore na resolução das maiores dificuldades e aceite da melhor forma os sacrifícios que se tornarem necessários e se procurará distribuir com equidade possível.
A todos se impõe viver a sua vida, mas agora com mais calma, trabalho sério, a maior disciplina e união; nem recriminações estéreis nem vãs lamentações, porque em muito ou pouco fique prejudicada a obra de renascimento a que metemos ombros. Diante de tão grandes males, faz-se mister ânimo forte para enfrentar as dificuldades: e da prova que ora derem, sairá ainda maior a Nação.»
Nesta data, em que se decidiu o futuro de Portugal e o contributo decisivo que a neutralidade portuguesa  viria a dar para o curso da História, absolutamente enaltecida, aliás, pelo governo britânico, publico um estudo que redigi sobre esse instante:

«A 1 de Setembro de 1939 António de Oliveira Salazar redige uma nota oficiosa do Governo proclamando ao mundo «a neutralidade portuguesa» no conflito militar então em curso que viria a desenvolver-se como a «Segunda Guerra Mundial».
Nessa madrugada Adolph Hitler, o chanceler alemão, que havia chegado ao poder em 1933, ordenara a invasão da Polónia, um Estado Católico, materializando o Plano Branco [Fall Weiss]. Num discurso messiânico dirigido aos seus soldados, Hitler, que completara 50 anos em Abril, afirmara «Deus diz que sois os representantes da grande Alemanha Nacional Socialista».
Nesse dia primeiro do mês o primeiro ministro britânico Neville Chamberlain, ante a «catástrofe» iminente, havia anunciado na Câmara dos Comuns que a Grã-Bretanha honraria os seus compromissos, defendendo a Polónia.
A Itália fascista ficava fora de jogo. No próprio dia 1 anuncia-se como potência «não beligerante» no conflito, não porque não tivesse firmado com a Alemanha o Pacto de Aço a 22 de Maio desse ano, mas sim porque havia sido desvinculada, por um telegrama do próprio Führer alemão de qualquer compromisso militar.
Dois dias depois, um domingo, a Grã-Bretanha e a França declaravam guerra à Alemanha. A nota oficiosa portuguesa saía nos jornais.
Portugal tinha jogado uma carta decisiva, colocando-se no que se viria a demonstrar um ponto crucial do tabuleiro onde se jogava o xadrez estratégico do conflito.
É claro que muitas potências se declararam neutrais no conflito, embora muitas não viessem a manter tal posição.
Só que nem todas o fizeram do mesmo modo, nem todas pelos mesmos motivos. Numa colectânea de estudos sobre a neutralidade editada em 2002 pela Cambridge University Press, sob a direcção do professor Neville Wyllie, alguns, como a Itália, a Jugoslávia, a Hungria, a Bulgária e a Roménia foram arrumados sob a epígrafe the «wait and see neutrals»
Portugal vem a revelar-se um caso interessante pela sua complexidade e pelos seus efeitos.
Trata-se, no que à portuguesa respeita, de uma neutralidade juridicamente situada, pois que é a racionalidade do Direito que serve de suporte à opção política que por ela se exprime.
É conhecido o corpus juridicus que dava fundamento à neutralidade das potências e das pessoas, no caso a Convenção aprovado em Haia a 8 de Outubro de 1907: nela não se define de modo substantivo o que seja neutralidade, antes se elencam os direitos dos países neutrais e dos cidadãos de países neutrais e as obrigações das potências beligerantes face a situações de neutralidade.
À sua luz, alguns países ensaiaram a construção de uma terceira categoria conceitual que o documento não admite, o de «não beligerância». De facto como potências «não beligerantes» se proclamaram a Espanha, a França de Vichy, a Turquia, o Egipto e a Argentina e poderiam ser considerados os Estados Unidos da América com o seu isolacionismo e a URSS antes da invasão alemã ao abrigo da «operação Barbarrossa».
Espírito jurídico por formação, o Presidente do Conselho de Ministros baliza, por isso, o não-alinhamento português dentro dos parâmetros estritos de tal corpo normativo de Direito Internacional; só que, Salazar sabe que, a limitar-lhe o caminho, tem dois outros anteparos legais, um a vinculá-lo aos ingleses, outro à Espanha de Francisco Franco.
No primeiro caso está a multi-secular Aliança Inglesa.
No que se refere às relações com a Espanha encontrava-se o Tratado de não agressão, firmado em 1939, que um Protocolo Adicional de 1940 haveria de complementar.
Neste terreno, a posição portuguesa parte daquilo a que estamos obrigados para aquilo que nos é permitido.
Uma frase da já lendária nota à imprensa exprime tal doutrina: «felizmente, os deveres da nossa aliança com a Inglaterra - que não queremos eximir-nos a confirmar em momento tão grave - não nos obrigam a abandonar nesta emergência a situação de neutralidade».
Estava dito o que havia para dizer.
Como argutamente o notou o Embaixador Franco Nogueira, exímio analista das subtilezas do pensamento daquele a quem dedicou uma notável biografia, Salazar, ao ter confiado a uma mera nota à imprensa e não a um diploma legal a definição da neutralidade, ao não ter, afinal, declarado solenemente a neutralidade, mas tendo-se limitado a um mero reconhecimento de uma «situação» de neutralidade, «mantém aberto o caminho para alterações que as circunstâncias do acaso venham a impôr» [Salazar, III, página 228, nota 1].
Sabedor das restricções da legalidade formal, o Governo português perfila-se no campo em que a lei lhe possibilita o máximo de liberdade política.
Delineado estava pois, num exercício de geometria no espaço, o poliedro político da neutralidade portuguesa.
Alguns adjectivos evidenciam do que se tratava.
Estava desde logo em causa uma «neutralidade benévola», como confidenciaria o próprio Oliveira Salazar a Walford Selby, o Embaixador britânico em Lisboa, à data, pois que, como o reconhecia a «nota à imprensa» defrontavam-se na luta «nações amigas e uma delas aliada».
Mas estava sobretudo em causa uma «neutralidade colaborante», tal como a qualificou Adriano Moreira e a elaborou em estudo teórico o investigador Luís Vieira de Andrade.
Radica aqui o cerne de muita polémica acerca da natureza e propósitos desse colaboracionismo.
Para uns, centrados numa ideia de pressuposta afinidade entre os regimes de Lisboa e de Berlim, tratava-se uma evidente colaboração com a causa alemã [mais tarde do Eixo]; para outros, um alinhamento objectivo com os interesses britânicos [mais tarde Aliados], sobretudo nos momentos decisivos em que os mesmos de nós reclamaram uma definição ou um apoio; para uns terceiros, um colaboracionismo volúvel, interesseiro, sem moral e sem princípios, orientado apenas pela mesquinhez dos interesses do país ou, menos ainda, dos interesses da sobrevivência política do regime do Estado Novo.
Não se espere que entremos nessa polémica.
Duas coisas são certas.
Primeiro, são conhecidas declarações de reconhecimento e de gratidão por parte de altos responsáveis aliados, mormente ingleses, por causa da posição global portuguesa na Guerra, mas não conheço declarações de igual sinal e significado por parte de dignitários alemães ou do Eixo tripartido, argumento que a não demonstrar a ingratidão nazi-fascista em relação à Ditadura que nos governou, pode querer dizer algo quanto à substância do que esteve em causa.
Segundo, que a sobrevivência política do salazarismo se ficou a dever, de 1945 em diante, quando a Segunda Guerra terminou à condescendência se não ao apoio explícito das forças das Nações Unidas que, erigindo a democracia como bandeira para a reconstrução europeia, coexistiram com o salazarismo e com o franquismo para esta ala ocidental europeia.
Daqui a concluir-se que em saldo final e como o proclamou em 1988 o historiador Fernando Rosas, a neutralidade portuguesa «correspondeu aos interesses estratégicos da Grã-Bretanha quanto à preparação e condução do conflito» ou que «a política externa salazarista durante a Segunda Guerra é tão anglófila, quanto ao essencial tão fiel à Aliança, como a dos afonsistas no primeiro conflito» vai um passo fácil [O Salazarismo e a Aliança Luso-Britânica, páginas 131 e 132].
Neutralidade ditada pelo afirmado desejo da garantir «a paz para o povo português», a definida por Salazar é, por outro lado, uma neutralidade de quem «espera que nem os interesses lhe imponham comprometê-la».
E nisso dos «interesses» e por causa deles, está a última característica do poliedro da neutralidade, o ser uma neutralidade em equilíbrio instável.
Essa geometria variável da neutralidade portuguesa decorre de um corpo multi-factorial que a condiciona, obrigando o Governo a exercícios custosos de ajustamento. Avaro quanto a dispêndios inúteis, Salazar disse um dia, a propósito de tal esforço, que a «neutralidade nem é cómoda nem barata».
Os sucessos da guerra e o desenho da mesma como uma «guerra total», vieram a pô-la à prova e a exigir-lhe constantes afeiçoamentos. Mas outras circunstâncias foram para ela provas de fogo cruciais.
Viveu-as com a plenitude dos poderes de quem cumulava os cargos de Presidente do Conselho de Ministros, Ministro dos Negócios Estrangeiros, Ministro da Guerra e das Finanças.
No plano da dinâmica do conflito militar, logo em Junho de 1941, ante a ameaça insensata de invasão dos Açores por parte dos Estados Unidos da América, a «operação Lifebelt», Portugal sentiu-se na necessidade de proceder a um rápido armamento do arquipélago, extensivo ao de Cabo Verde, admitindo que, em flagrante violação logo com o artigo 1º da Convenção de Haia de 1907 - que declara que «o território das potências neutrais é inviolável» - as ilhas atlânticas fossem objecto de ocupação manu militari por parte dos aliados.
Uns meses antes, a 12 de Novembro de 1940 uma outra ameaça se desenhara, de invasão da Península Ibérica por parte das tropas alemãs, que desde Junho ocupam já a França: era o «plano Félix» de progressão alemã até Gibraltar.
Através de um jogo diplomático complexo, Salazar garante a sobrevivência das ilhas atlânticas e assegura aos alemães a desnecessidade de invasão ibérica, por ter o Caudillo amarrado pelo Tratado de Não Agressão e pelo seu Protocolo Adicional.
Em toda essa trama se joga a neutralidade.
No primeiro caso, tudo se esclarece em Julho de 1941, com uma carta do Presidente Roosevelt a reconhecer, legitimando a própria política colonial portuguesa que «o exercício contínuo da jurisdição soberana e total do Governo Português sobre o território de Portugal, Açores e todas as Colónias Portuguesas oferece, no que diz respeito a essas regiões, uma completa garantia de segurança ao Hemisfério Ocidental».
No segundo caso, sendo objectivo estratégico do Führer expulsar a Inglaterra do Mediterrâneo Ocidental, passando tal pela ocupação de Gibraltar e pelo impedir que os ingleses ocupassem qualquer das ilhas do Atlântico, estaria em causa a intervenção portuguesa no conflito para defender os arquipélagos dos Açores e de Cabo Verde. Tal seria a ruptura com a posição de não intervenção definida em 1939.
Sucedeu, porém, que uma caminhada até Gibraltar passaria na visão alemã pelo consentimento espanhol. Hitler havia confidenciado a Pétain quando do seu encontro com o Marechal da França num túnel ferroviário as suas intenções estratégicas. Salazar soubera das intenções do Führer através do nosso cônsul em Vichy, que veio secretamente a Lisboa avisar de tal o Presidente do Conselho de Ministros.
Para o obter, três semanas antes de assinar a directiva n.º 18, que aprovou a operação «Félix», concretamente em 23 de Outubro de 1940, Hitler encontrou-se em Hendaye com o Generalíssimo Francisco Franco.
Foi um encontro terrível. O alemão diria mais tarde que preferia arrancar todos os dentes da boca do que encontrar-se de novo com Franco.
É que a reunião seria inconclusiva. Oliveira Salazar, a 17 de Março de 1939, aprisionara Franco com o Tratado de Não Agressão.
Numa biografia sobre Franco escreveu-se que o Pacto Luso-Espanhol «claramente demonstrou que a Espanha, mesmo que o desejasse, não poderia entrar na guerra ao lado das potências do Eixo sem a concordância de Portugal, o que, certamente, atendendo ao velho tratado (o Tratado de Aliança entre a Inglaterra e Portugal) nunca seria obtido»
Agora o Presidente do Conselho de Ministros dera no laço um nó de segurança ao ter firmado agora em 29 de Julho de 1940, o Protocolo Adicional.
A propósito deste último disse o Embaixador em Madrid Teotónio Pereira: «Por este Protocolo, Portugal e Espanha mostravam a sua firme convicção de deter Hitler nos Pirinéus e, se necessário fosse, de lutar lado a lado contra a invasão da Península».
Claro que a forma diplomática era branda e menos assertiva ao prever apenas um mecanismo de consultas recíprocas entre os dois governos no caso de ataque aos respectivos territórios, quaisquer que fossem os compromissos assumidos pelas partes outorgantes para com terceiras potências.
Perante todo este cenário, Augusto de Castro, que foi director do «Diário de Notícias», escreveu num livrinho que o grande mérito de Salazar, «desde as primeiras horas da guerra, foi compreender que a neutralidade da Península não se defendia só nos Pirinéus e no Continente - mas se defendia também, e com dupla eficácia, nos nossos portos do Atlântico, do Funchal aos Açores e a Cabo Verde».
E conclui mais adiante, querendo-se reportar respectivamente às operações «Felix» e «Lifeboat», que «a neutralidade peninsular fora salva duas vezes: em 1940, contra os Alemães, e em 1941, apesar dos Aliados».
Mais tarde em 1943, no quadro da Conferência Tridente, de novo ressurge a ameaça de invasão dos Açores, desta feita com o apoio do próprio Primeiro Ministro inglês Winston Churchill, e com ela a necessidade de abrir a porta das negociações diplomáticas para que se não liquide a lógica da neutralidade por causa de uma façanha belicista inútil.
Tudo terminaria em bem com o Acordo de 17 de Agosto de 1943, para entrar em vigorem 8 de Outubro de 1943, sobre a utilização pelas força aliadas das facilidades dos Açores.»
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A foto que ilustra este artigo é a da declaração de neutralidade tal como redigida por Salazar e nessa mesma noite transmitida, para conhecimento, ao jornalista Luís Lupi.

Conversa na RTP-rádio...

Conversa com a jornalista Daniela Soares, da RTP-rádio, sobre o meu livro Traição a Salazar. Pode ouvir-se aqui.

Os "Centenários": propaganda e estratégia

O filme é típica obra de propaganda, encomiástica, a voz alteada em narrativa laudatória. É um documentário sobre a Exposição do Mundo Português. Teve lugar na zona ribeirinha de Lisboa, sendo seu comissário o capitão Henrique Galvão.
O facto político que a exposição traduz é, porém, significativo. Enquanto a Europa se dilacerava em guerra, enquanto pairavam sobre Portugal as ameaças da invasão alemã e - afinal dos próprios aliados para a prevenir - o Estado Novo quis dar mostra pública de dois valores simbólicos: primeiro, o da sua independência - e pela Comemoração dos Centenários se junatavam 1140 e 1640, a primeira a data aproximada do surgimento da Nação, a segunda o da libertação dos cinquenta anos de sujeição ao domínio de Castela - e segundo o «haver habitualmente» que Salazar havia definido ser o modo tranquilo do português que idealizava.
Acto de propaganda, sim, mas não só interna, sobretudo externa, a Exposição, os Centenários foi naquele ano no domínio dos símbolos políticos o que a declaração de neutralidade foi no plano das representações geo-estratégicas.
Sem essa compreensão pouco se entende da vital inportância desse ano.
A Inglaterra, a nossa mais velha Aliada far-se-ia representar ao mais alto nível pelo Duque de Kent. Um outro Duque surgiria, porém... [a ele voltaremos].

Entrevista ao JN de hoje

Operação Triplex

A consciência de que os serviços secretos ingleses durante a 2ª Guerra violavam a mala diplomática dos países neutrais, entre os quais Portugal, veio-me ao conhecimento ao ter lido, há uns vinte anos, as memórias de «Kim» Philby. Em rigor o homem chamava-se Harold Adrian Russel Philby. Adoptou o designativo de «Kim» por causa da obra O Livro da Selva, de Rudyard Kipling, de quem era fã.
Essas memórias foram escritas em Moscovo, após a sua inopinada fuga para a URSS, descoberto que foi o facto de ser uma "toupeira", dede há muitos anos, dos serviços secretos soviéticos na comunidade britânica de informações.
Na obra, «Kim» descreve o método usado: o avião onde o correio diplomático viajava era propositadamente atrasado, o homem convidado pelo oficial de segurança do aeroporto a aguardar a demora nas suas instalações e a "aliviar-se" da mala no cofre disponível. Claro que o cofre tinha fundo falso e a mala era aberta e o conteúdo fotografado.
O que vim a saber mais tarde é que o responsável por essas operações sistemáticas [cognominadas Triplex] era Anthony Frederick Blunt, ele também uma infiltração soviética, e membro do Grupo dos Cinco, tal era o número daqueles que a URSS havia logrado infiltrar a alto nível nos serviços secretos britânicos. Blunt que viria a ser uma proeminente figura da aristocracia britânica, com o título de Sir, e curador de quadros da Rainha...
Usei a informação quando escrevi a biografia do Rogério de Menezes, o dactilógrafo da Embaixada portuguesa em Londres, que era um agente ao serviço dos alemães e dos italianos, ao tempo em que o Embaixador naquele País era Armindo Monteiro, pai do escritor Luís de Sttau Monteiro.
E porquê? Porque durante a investigação que me conduziu ao livro havia um enigma a resolver: como é que os ingleses tinham tido acesso às cartas que Menezes enviava para Lisboa, em envelopes endereçados a sua irmã, D. Hália de Menezes, nas quais fazia constar, escritas em tinta invisível, informações que recolhia na capital britânica? E mais: porque é que durante o seu julgamento no Tribunal Criminal Central de Londers, o Old Bailey, tudo foi feito pela acusação para esconder a origem das informações que levariam à sua condenação à pena de morte? [da qual escaparia, como conto no livro, em circunstâncias que são tão fantásticas como uma obra de ficção].

P. S. No blog 24 Land publico mais referências a este assunto. A ler, aqui.

O Espião Alemão em Goa: segunda edição

Na editora "Oficina do Livro" proibiram-me que anunciasse antes. Que roesse o nó dos dedos. Já tenho um exemplar impresso há vários dias. Mas o lançamento será no mês de Novembro. Em data a anunciar.  Como daqui a umas horas começa Novembro, sinto-me autorizado. Na noite das bruxas.
Trata-se da segunda edição do livro "O Espião Alemão em Goa". Escrevi-o há dez anos, revi-o, actualizando alguma informação, limando certas ideias. O essencial da narrativa mantém-se. Cito do resumo: «Os factos são reais. No Carnaval de 1943 três navios alemães e um italiano, todos civis, foram incendiados e afundados, pela sua tripulação, no porto de Mormugão, no então Estado Português da Índia. Resistiam assim a um ataque do SOE britânico, o serviço de operações especiais encarregado "da guerra não cavalheiresca". Para proteger os interesses aliados, as autoridades portuguesas condenaram judicialmente os tripulantes, dando como não provado que tivessem resistido a uma tentativa de apresamento, com violação da nossa neutralidade. Ao erro judiciário seguiu-se a propaganda: para os britânicos o fiasco da expedição foi convertido em vitória. Só os portugueses saíram mal da história.
Salazar teve de intervir junto do poder judicial. O silêncio caiu sobre a história. Este livro tenta repor a verdade, para além das conveniências».

Hitler e Portugal

Há achados inesperados. Este surgiu pela hora do almoço, entre uma garfada e uma espreitadela ao que ando a organizar no campo dos meus estudos. Um artigo sobre a relação entre Adolph Hitler e a imprensa portugusa. Abre com uma entrevista dada ao "Diário de Notícias".

«Armando Boaventura deixa perceber, no seu relato, que Hitler havia sido preparado para receber o jornalista, conduzindo a conversação em forma de monólogo.

"Oiço a sua voz - forte, dum timbre metálico que fere, voz de comando, autoritária.
O dr. Ashmann diz-lhe quem somos. Hitler já o sabia, e até, sobre cada um de nós, os dois jornalistas portugueses, possuia informações.
As suas primeiras palavras são de cumprimento - protocolares:
Lamenta não conhecer Portugal, por nunca o ter percorrido, mas as suas belezas, tesouros artísticos e gloriosa história não os ignora.
Uma frase, que o dr. Ashmann traduz num francês correcto:
  1. -As relações entra a Alemanha e Portugal têm tanta maior razão de existir, estreitas, íntimas e francamente cordiais, quanto é certo que a actual situação política portuguesa se inspira em muitos dos princípios, directrizes e objectivos que informam o regime nacional-socialista da nova Alemanha."


E tudo o mais que o leitor quiser ler aqui.

A honra da Rússia

Chamava-se Galina e encontrámo-nos, como se clandestinamente, em Zurich, eu trazendo à vista um livro do Graham Greene. Tudo começara numa livraria escondida onde procurei, como pretexto, álbuns sobre São Petersburgo. Procurava-os sim aos russos brancos em Paris, e à sua organização, as ROV, às infiltrações alemãs. Por ela soube que a Marina Grey era a filha do general Anton Denikin. Mais tarde seguiria no encalço dos raptores do general Miller, do mesmo bando que raptara o general Koutiepov, os mesmos que assassinariam "Trotsky". 
Foram tempos em que li às pressas "Le General Meurt à Minuit" na nova Biblioteca Francesa, monumental, em forma de livro, em que hesitei escrever que o ouro do Banco de Espanha foi roubado pela "ajuda" internacionalista e carregada no porto de Cartagena. 
Tempos em que subi a Rue Daru, folheei-os aos álbuns sobre a honra da Rússia, de André Korliakov, vi, boquiaberto no "Nimas" em Lisboa "O Agente Triplo" de Eric Rohmer, sem saber que tinha estudado tudo isso, semanas antes, incluindo o papel ambíguo de Nikolai Skoblin.
Tudo isso para um livro, a biografia de uma extraordinária mulher. O meu melhor livro, acho eu, o menos lido.

Aterrem em Portugal

A gentileza de Carlos Guerreiro permitiu a gentileza da entrevista. Milita no mesmo campo que eu, no seu caso, no da aviação. Pode ler-se aqui. Tem um blog e um livro que resume assim: «O nome deste blogue é igual ao de um livro chamado “Aterrem em Portugal”, editado em finais de 2008 e que contém histórias de aviões e aviadores alemães, britânicos, americanos e outras nacionalidades que durante a II Guerra Mundial aterraram ou caíram no nosso país.São mais de uma centena os aparelhos que tiveram esse destino e mais de seiscentos os homens que passaram por aqui durante esse período. Foi possível entrevistar vários destes homens ou consultar documentos – incluindo diários pessoais- onde a passagem por Portugal é referida».
Um trabalho notável.

Polacos na guerra secreta em Portugal

Vindos da Rússia, pela mão de José Milhazes [aqui e aqui] chegam documentos que os serviços secretos soviéticos obtiveram junto do Ministério dos Negócios Estrangeiros polacos, remetidos pela Embaixada polaca em Lisboa. São relatórios do Embaixador da Polónia, Karl Dubic-Penter, com notas de conversa com o Presidente do Conselho de Ministros de Portugal, Oliveira Salazar. O encontro ocorreu em 13 de Março de 1937, quando da apresentação das cartas credenciais. A conversa teve como tópico a posição portuguesa face aos temas candentes da política externa. Encontrando um interlocutor profundamente informado, o Embaixador expõe uma proposta de colaboração dos polacos no combate ao comunismo, dado que para Salazar esse era o problema fundamental.  A colaboração viria a tornar-se efectiva durante a 2ª Guerra, como se encontra a ser detalhadamente estudado na Polónia [ver aqui]. Parte, enfim, dos inestimáveis serviços de uma Nação católica, que seria martirizada pela URSS e pelo III Reich. Citando do documento:
«Visto que eu tinha sido encarregado pelo Chefe do Estado-Maior e pelo chefe do 2º Departamento de estabelecer cooperação com o Governo português na base de informações sobre a III Internacional,  que prevê também a prestação de ajuda da nossa parte na organização da espionagem e acções de segurança, eu propus a SALAZAR ajuda nesse sentido. SALAZAR recebeu muito bem a minha proposta e disse-me que iria amplamente utilizar essa possibilidade»

O SOE em Portugal: duplicidade e traição

«Nesse dia frio de um novo ano que despontava chegava a Lisboa um inglês, jovem ainda, de aparência discreta, viajando com cobertura diplomática. Vinha de Londres. Tinha deixado atrás de si uma cidade preparada para a guerra. Sacos de areia por todo o lado protegem pessoas e edifícios. Balões de barragem tentam travar nos céus os progressos da aviação alemã. John Grosvenor Beevor, advogado da prestigiada firma de advogados Slaughter & May, conhecida como «O Círculo Mágico», ainda hoje uma das líderes nos meios forenses da Grã-Bretanha, havia sido recrutado para um organismo de quem nem o nome podia ser então revelado: o SOE». Assim abre um pequeno livro que escrevi sobre o que passou para a história como "a rede Shell".
Uma falha na formatação do texto eliminou o trecho onde referia quantos me antecederam na investigação que tenho desenvolvido sobre este tema: António Telmo, a quem devo gentileza de ter apresentado dois livros meus, Júlia Leitão de Barros que há vários anos abordou com solidez e rigor este tema depois descontinuado, Irene Pimentel, a quem se devem obras sucessivas, de cunho académico, em que o assunto da guerra secreta é recorrente, Rui Araújo, apesar deste me ignorar deliberadamente nas suas referências., gostaria eu de saber porquê. 
Apesar de ser um livro para o grande público estas menções eram devidas e tantas outras. Uma história é sempre a daqueles que a encontraram e de quantos a viveram.

O Lupi das barbas

Controverso, viveu no regime anterior, entre as informações e a propaganda. Homem das esferas do poder, tinha acesso directo ao Presidente do Conselho e ao Presidente da República. Em 1962 a PIDE diagnosticava-lhe tendências pró americanas e pró inglesas. O seu ocaso inicia-se com a morte de Salazar. O 25 de Abril trar-lhe-ia a liquidação da ‘Lusitânia’, a agência noticiosa que criara em 1944, e o exílio. Na juventude recusara um emprego que Fernando Pessoa lhe sugerira, de correspondente em línguas estrangeiras em firmas comerciais.


Dia 4 de Dezembro de 1941. Aviões nipónicos atacam a base naval americana de Pearl Harbour, no Pacífico. Apanhados de surpresa, os yankees mal têm tempo para reagir. O resultado é o desastre.
Nessa noite o jornalista Luís Caldeira Lupi jantara no Gambrinus com sua mulher. Terminada a cuidada refeição seguiram para o cinema, a poucos passos dali. O Politeama era na altura um local aprazível.
O rápido evoluir da Guerra não o deixava, porém, tranquilo. Prevenindo qualquer eventualidade, deixara no escritório da agência de notícias de que era correspondente em Lisboa, a Reuter, indicação quanto ao local onde poderia ser encontrado.
A meio da exibição do filme dá-se o inesperado. Pelo altifalante do cinema «o senhor Lupi é convidado a ir ao telefone». Surpresa entre todos os que assistiam à película. Que se passaria?
Era o seu colega da Associated Press, em Berna, lugar onde se centralizavam todas as informações oriundas do vários correspondentes na Europa, a dar conta do traiçoeiro ataque nipónico e a pedir uma reacção oficial portuguesa.
Os passos de Lupi haviam sido, no entanto, seguidos pelo engenheiro Espregueira Mendes, na altura Sub-Secretário de Estado das Comunicações. Atónito, registou os apressados apontamentos que elucidavam quanto ao que se passara. A notícia assustava, prevendo-se já as suas funestas consequências.
Haveria que prevenir. Dali mesmo se telefonou, por isso, para a residência de Oliveira Salazar, o Presidente do Conselho de Ministros, informando-o do sucedido. Pressuroso, Lupi acrescenta que ante esta situação a América já estava em guerra e o Alemanha «em breve seria liquidada».
Tudo se passava então num círculo restrito.
Solitário na sua reclusão na Rua da Imprensa, o Presidente do Conselho não tinha o favor de conselheiros ou assessores que hoje em grande número coadjuvam os membros do Governo.
Com uma manta de lã em cima dos joelhos, para assim poupar energia em aquecimento, Salazar seguia o curso da guerra através do telégrafo que ia deixando notícia dos progressos militares e dos principais actos das chancelarias.
Activo, fiel, Lupi, que o Papa João XXIII elevaria à condição de Visconde Baçaim, vivia de alma e coração a sua profissão. Fundara em 1944, dirigira durante anos o escritório da Associated Press em Lisboa. O jornalismo era a sua devoção, as informações o seu ‘métier’.
Salazarista convicto, não deixaria de ter, porém, problemas com o regime ou pelo menos com alguns dos seus quadros. A entrevista de Salazar a António Ferro, que marcaria em 1938 um ponto alto na propaganda do Chefe, e que o Diário de Notícias publicou, seria resumida de modo considerado indesejável pelo colaboracionista e obediente Sindicato dos Jornalistas. Colocado em suspeita o jornalista autor das transcrições, o nome de Lupi acabou referenciado. Do relatório final elaborado pela PVDE consta esta informação de síntese, da autoria de Agostinho Lourenço da Conceição Fernandes, o seu director: “(…) aparece uma vez mais o nome de Luís Lupi. O seu passado pouco recomendável leva-me a admitir que é capaz do que se suspeita e de muito mais. As suas afinidades e relações, que não se justificam pela sua categoria, o seu trem de vida muito e muito superior ao normal e sobretudo aos que desempenham idêntica profissão, fazem-me crer que o Lupi, esquecendo-se que é português, não tem dúvida em servir estranhos que lhe pagam bem, mesmo que seja para colaborar em campanhas contra a sua Pátria”.
Estava criada a suspeita sobre se o homem que em 1944 viria a fundar a agência “Lusitânia” não estaria a soldo de serviços estrangeiros de informações.
Mau grado o ciúme e o despeito, é verdade que se tornaria indispensável. Na sua residência havia um telefone directo com que comunicava directamente com Salazar. Às quintas-feiras era recebido pelo Presidente da República.
A antipatia por Ferro marcar-lhe-ia muito do seu destino. Numa sua interessante biografia, editada em 1995 e prefaciada por Paradela de Abreu, Wilton Fonseca lembra um acontecimento desse turbulento ano de 1938. Ferro, director do Secretariado de Propaganda Nacional haveria sugerido a Lupi que, através da Reuter, se passasse a falar “mais e melhor” de Portugal.
Agastado com o teor do convite e da sugestão, Lupi contra-ataca: “Em todas as circunstâncias, a Reuter é a única entidade com direito a decidir sobre qual o noticiário que deve ou não ser distribuído à imprensa e a ideia de nos oferecerem pagamento é absolutamente fora de questão”.
Estava criado o atrito. O “Lupi das barbas” como o individualizava Salazar, tornava-se mais útil nas informações do que na propaganda. Sem aquelas não há poder, sem esta não há regime. O homem que em 1936 escrevera ‘Achtung! Uma Civilização Ameaçada’ tornara-se o ‘informant’ e o conselheiro da Situação.

PS Na foto o Luís Lupi proferindo conferência na Sociedade de Geografia. Barbeado. Mais tarde o Regime rapá-lo-ia.

Ian Fleming: o gosto amargo

O JL pediu-me e publicou neste último número um pequeno texto sobre «um espião que tivesse a ver com a Literatura»:
Fiquei embaraçado porque a escolha é vasta.
Acabou por sair isto que, por estar já divulgado, permito-me citar, vendo que o tema da capa do jornal é «Espiões, literatura, sedução e mistério»:
«Podia ser Graham Greene, que tendo estado no desk português da Secção V do MI6 foi um notável escritor, ou Malcolm Muggeridge, que serviu o MI6 em Lourenço Marques e nos legou uma interessante obra literária, ou mais antigo, Somerset Maugham que, a mando dos serviços britânicos, esteve na Rússia czarista, com fundos clandestinos, a tentar salvar o governo de Kerensky. Era “chic” que fosse John Le Carré, nome literário que adoptou David Corwell, colaborador também do MI6 e do MI5 e cujas personagens têm um toque de polimento académico e por cuja escrita perpassa uma sempre bem recebida crítica ao “establishement” da comunidade oficial de “intelligence”. Escolhi Ian Lancaster Fleming e a sua criatura James Bond, porque, como escrevi num livro que editei quando do centenário do primeiro, tratam-se de uma e da mesma pessoa, uma interessante autobiografia comum. Há nos seus livros uma tragédia existencial e uma simbólica alquímica que Hollywodd malbaratou tornando 007 uma figura burlesca. Há uma transmigração de almas, como no caso do carro que fala, o “Chitty Chitty Bang Bang”, que escreveu estando no hospital a iniciar o processo que o levaria à morte. Escolhi-o porque «depois de uma certa idade, ninguém deve relacionar-se com alguém que deixe numa pessoa um gosto amargo no espírito ou no palato; méfiez-vous du sang apre», escreveu no seu bloco de apontamentos, a vida a escoar-se-lhe. Escolhi-o porque “You Only Live Twice”»..

"Romances de espionagem!

Uma pessoa mata-se a trabalhar. Passa dias nos arquivos, gasta uma pequena fortuna em livros e em documentos. Publica cinco livros que foram centenas de horas de investigação sobre a guerra secreta em Portugal enter 1939-1945. 
Depois lê isto aqui, citado a propósito do actual momento e dos "espiões" que foram descobertos nos EUA mais as trocas com espiões russos: «(...) analisa José António Barreiros, advogado, autor de romances de espionagem, incluindo um (Nathalie Sergueiew, uma agente dupla em Lisboa) que relata a actividade de uma espia russa em Portugal». Romances de espionagem diz ele jornalista que quando me telefonou se justificou dizendo conhecer a minha obra e a quem eu disse que hesitaria responder por me parecer que a mesma, sendo no campo do ensaio histórico podia não dar elementos que permitissem uma opinião credível sobre o que estava em causa.
Uma pessoa mata-se a trabalhar. Passa dias nos arquivos, gasta uma pequena fortuna em livros e em documentos. Publica cinco livros que foram centenas de horas de investigação. Depois sente-se uma palhaço às mãos deste mundo de superficialidades. Antigamente irritava-me porque amigos meus diziam que tinham gostado muito de ler os meus "romances policiais". Agora, às mãos da imprensa bem pensante passei a autor de "romances de espionagem". É por isso que quase não leio jornais. Na minha pele sinto a dos outros à mercê dos abutres da carne fácil, morta de pereferência.

Fim de uma exposição

Inaugurou-se, como aqui informei, em 25 de Outubro de 2008, uma exposição. Terminará, como aqui se anuncia, amanhã. Foi um esforço pelo qual estou grato aos que o proporcionaram, à vida por ter-me permitido. Em Portugal não existiu nada de semelhante. Não é que tenha grande importância. É só por ter sido uma pequena coisa que não havia. Aqui fica: obrigado, também àqueles a quem já não posso dizê-lo pessoalmente.

00Fleming: crítica a um crítico


Para que quem tiver lido a crítica e quiser ficar esclarecido, aqui vai o contraditório que espero a publicação em causa garanta. Como é mensal, levará um mês a efectivar-se, a acontecer.


«Vejo na página 66 da revista Os Meus Livros uma irónica contradição entre o meu livro 00Fleming, Ensaio sobre a Imortalidade merecer cinco estrelas e uma crítica rude ao mesmo, que o título da prosa «Ensaio sobre a banalidade» resume.
Deve um autor sujeitar-se à crítica sem réplica? Duvido. Mas o que um autor não pode é consentir que aos leitores seja servida, como se crítica fosse, uma análise em que se produzem afirmações erróneas, contraditórias. Rogo, pois, a publicação deste texto.
Dizer que o meu trabalho é «demasiado superficial para os entusiastas do agente 007 e demasiado impenetrável para quem procure nele uma primeira porta de entrada no universo de Fleming» é obviamente uma contradição patente. Os «entusiastas» do 007 são na sua maioria cinéfilos deliciados com as aventuras sem ideias com que Hollywood abastardou a personagem, quantos não leram um livro sequer de Fleming [desde as da Portugália as edições em português são quase nulas] e o meu livro não pretende declaradamente ser «uma porta de entrada» na escrita de Fleming, sim uma elaboração sobre ela, de outro modo teria outro estilo e não se chamaria ensaio. Na ânsia de jogar com palavras, o crítico nem percebeu em que nó se mete. Fosse só isso…
Dizer que o meu livro «pouco mais faz do que resumir aquilo que já conhecemos [sic] de centenas de obras anteriores», é de uma arrogância hilariante. O crítico obviamente não leu centenas de obras sobre o Fleming e se escreve assim só pode ser para se dar ares de conhecedor. No fim do livro cito as referências do meu trabalho, que começou nos Arquivos Nacionais britânicos.
Mas há mais. Afirmar que ignoro o impacto que o Bond cinematográfico «teve no próprio Fleming» é não saber nada, nem ter lido sequer o que escrevi com atenção. Fleming não teve tempo de vida para assistir senão a dois filmes da série e não se entusiasmou com nenhum. A cinematografia Bond começou em 1962, Fleming morreu em 1964.
Dizer que eu me disperso «demasiado nos aspectos ocultistas da obra» é não ter dado conta, primeiro, que eles são uma evidência num homem que traduziu um escrito de Carl Jung sobre o alquimista Paracelso, pelo que o tema tem de ser referido e, segundo, que eu confessadamente os reduzo [9 páginas em 102], exactamente para não alinhar o meu escrito nesse tópico que é causa de perda de credibilidade.
Com destaque, diz o crítico que um dos «contras» do meu livro é «demasiada confiança depositada em rumores», pois terei dito que «quando foi assassinado Kennedy estava a ler um livro de Bond». Gargalhada sonora. É óbvio que «quando foi assassinado» o malogrado Presidente não estava a ler livro algum! O que eu digo é que «na noite anterior estaria a ler um livro», condicional dubitativo percebe? E digo a seguir que tudo isso é «uma lenda». Cinco estrelas, sim, mas para o crítico! Pelas piores razões.
Em suma, se o meu livro é mau, esta crítica é péssima».

Joaquim Furtado: a guerra em África, uma ferida por sarar?


Em Faro. No Pátio de Letras, uma livraria, um espaço de convívio cultural. A casa cheia para ouvirem Joaquim Furtado falar sobre os documentários que tem vindo a realizar para a RTP sobre a guerra em África. Ambiente amigo, conversa emotiva, franca. Houve quem, pela primeira vez, tenha ousado dizer: «eu estive lá». Uma ferida na sensibilidade de Portugal e da suas antigas possessões além-mar começa a cauterizar-se, sangrando.

Obrigado Joaquim pela generosidade, obrigado Liliana, pelo esforço tremendo que tem permitido manter a iniciativa de pé.

No dia 25 inaugurar-se-á no Espaço de Memória uma exposição permanente sobre a guerra secreta em Portugal, entre 1939-1945. Faltam poucos dias e imenso trabalho. Surgirá.

Espaço de Memória

Inaugura-se hoje em Faro, pelas 17:30. Chama-se Espaço de Memória.

«Tudo começou há vinte anos: decidi então juntar à vida que já tinha vivido como advogado, uma outra, a aventura da escrita.
O tema surgiu, como tanto do que é importante na vida, de um acaso.
Comecei a escrever artigos na imprensa, assinando-os com parte do meu nome: Chamo-me José António Rebelo da Silva Barreiros, assinava como António Rebelo da Silva. Simbolicamente era parte de mim que assim se representava, a mostrar que restava o outro, para o qual sobejavam os nomes de José Barreiros.
Um dia, ganhei ânimo e juntei tudo em livro. Felizmente está esgotado, porque é daquelas obras que não nos envergonham, fazem-nos apenas sentir um acesso de timidez pela sua ingenuidade. Chama-se A Lusitânia dos Espiões.
Foi assim que surgiu este interesse pela guerra secreta em Portugal, entre 1939-1945. Verdadeiramente não sei porquê, mas na vida nem tudo tem explicação, porque há o mistério» [continua aqui]

The name's Bond, James Bond

Porque há milagres, terminei, com ilustrações do Abel Agostinho, um livro comemorativo do centenário do nascimento do escritor Ian Fleming. Ridicularizado por muitos por causa da criatura 007 que gerou e que Holywood degradou com a sua série de aventuras, há na sua vivência e na sua escrita mais profundidade do que imaginam os espectadores dos filmes inspirados na saga do agente que tinha «ordem para matar».
O texto está na tipografia e eu em ânsias quanto a ter saído alguma coisa mal. O lançamento é no dia 12, em Faro.

Goldfinger

Desta feita eis-me a terminar, finalmente, um livro sobre Ian Fleming, comemorativo do facto de se terem completado, em 28 de Maio, cem anos sobre o seu nascimento.
O prazo para entrega do texto à tipografia tem sido sucessivamente alterado, pelo cansaço, por outras obrigações sempre mais urgentes, pela vontade de aprimorar a prosa. Deste fim de semana não passa.
Quem lê nem imagina o trabalho que por vezes dá escrever.
Ian Fleming, inspirado em Otto Skorzeni, criou um grupo de comandos, uma unidade de assalto a que chamou 30AU. Ora sucedendo que o síbolo «au» é o do ouro, será por acaso que Auric Golfinger tem esse nome e o metal amarelo está presente praticamente em todos os livros do criador de 007?
Houvesse método alquímico de, através da pedra filosofal, eu transmutar este texto num livro já pronto, e nem hesitaria! Hermes Trimegisto me valha!


Centenário de Ian Fleming-Conferência no Estoril


Comemora-se no próximo dia 28 de Maio o centenário do nascimento de Ian Fleming. Estou a aprontar um pequeno livro de rememoração. Por gentileza do Presidente da Câmara Municipal de Cascais no próximo dia 28, pelas 21 horas, profiro no Estoril, no Espaço dos Exílios (antiga Estação dos Correios) uma conferência sobre a vida e a obra deste escritor cuja obra literária ultrapassa em muito aquilo que o cinema popularizou em torno da sua criatura: James Bond, o agente 007.

Ainda Howard

Obrigado à Teresa Guerreiro, infatigável coleccionadora de fotografias, o ter encontrado este momento em que o Século Ilustrado recordava que há trinta anos o actor Leslie Howard havia estado em Portugal, a proferir conferências. Sobre isso e sobre a circunstância de, ao haver regressado a casa, ter encontrado a morte, pois o avião onde viajava foi atacado pela Luftwaffe, escrevi um livro. Nele contámos a história em texto e em banda desenhada, esta com o traço do Carlos Barradas. Na foto, à direita, o seu empresário Alfred Chenalls, que também morreria na fatídica viagem. Treze passageiros a bordo, número aziago. Depois de ter escrito o livro encontrei ainda, saudosa, uma cativante figura de mulher a quem ficou, numa solitária fotografia, a recordação do momento grato dessa sua passagem por Lisboa.

Casino Royale

No dia 28 de Maio comemoram-se cem anos que nasceu Ian Lancaster Fleming. Oficial dos serviços de informações da Marinha Britânica, o NID, esteve em Portugal, a acompanhar o almirante John Godfrey, a caminho da América, e participou na implantação de algumas operações secretas que envolvem a área ibérica.
Retirado do serviço militar, iniciaria aquilo que o levaria a figura de renome mundial, a actividade de escritor. Em 1953 publicaria Casino Royale, uma novela de suspense, em que o agente comunista Le Chiffre joga a partida da sua vida, na ânsia de poder recuperar os fundos do Partido, sem o que estaria à mercê do SMERSH, o cruel serviço de execuções de Moscovo, resopnsável pelo assassinato de Trotsky no México.
Redigido no ambiente da guerra-fria, na Jamaica, a cena do livro inspira-se numa passagem do autor por Lisboa, diz o site oficial do MI6. No livro a cena ocorre num casino que Fleming situa em Royale-les-Eaux, junto ao Somme. É aí que se dá a batalha decisiva entre os dois agentes, 007 a ter de vencer entre «um murmúrio de amor, um murmúrio de ódio».
É sobre isto que, por mais fantástico que pareça, estou a terminar um pequeno livro; a terminar ou a começar, conforme a perspectiva das coisas. Estará pronto a tempo.